Em Minneapolis, no Minnesota, EUA, George Floyd, um homem de 46 anos, foi morto por um polícia. Parece que usou uma nota falsa para pagar uma compra numa loja, não mais de 20 dólares. Parece que resistiu à detenção policial. Podia até ser um perigoso criminoso, o que aparentemente não era. Nada disso justificaria o que aconteceu a seguir. George Floyd, um homem negro (porque há circunstâncias em que esta informação é relevante) foi morto por um polícia branco, com a cumplicidade de mais três polícias brancos. Estava desarmado, deitado no chão, no meio da rua, impossibilitado de se mexer por um polícia que lhe agarrava os braços e que com o joelho pressionava o seu pescoço. As imagens, captadas por telemóveis pelos transeuntes, mostram-no em desespero. A dizer que não podia respirar, a implorar para não o matarem. "I can't breathe", repete. As pessoas que passam na rua protestam também. Mas os polícias, esses, mantêm-se impávidos e serenos. O vídeo, que vi ontem, quase em lágrimas, é impressionante. Há um homem que morre ali mesmo à nossa frente (a versão oficial é de que George Floyd só morreu no hospital), no meio da rua, sufocado por um polícia-carniceiro, perante a impotência dos cidadãos (de nós todos).
É tão assustador.
E revoltante.
#icantbreathe
E mais uma reflexão:
Tenho sempre muitas dúvidas sobre a divulgação deste tipo de vídeos, tento evitá-los e só os vejo quando, por motivos profissionais, tenho mesmo de fazê-lo (foi o caso). E, no entanto, se não fossem estes vídeos nunca saberíamos como esta e outras mortes (e torturas e maus tratos e outros casos) tinham de facto acontecido. E isso também é assustador.
Se quiserem saber mais, leiam ESTE TEXTO da New Yorker, que vos dará uma visão mais abrangente sobre o caso e levanta algumas questões muito pertinentes.
Em Minneapolis, no Minnesota, EUA, George Floyd, um homem de 46 anos, foi morto por um polícia. Parece que usou uma nota falsa para pagar uma compra numa loja, não mais de 20 dólares. Parece que resistiu à detenção policial. Podia até ser um perigoso criminoso, o que aparentemente não era. Nada disso justificaria o que aconteceu a seguir. George Floyd, um homem negro (porque há circunstâncias em que esta informação é relevante) foi morto por um polícia branco, com a cumplicidade de mais três polícias brancos. Estava desarmado, deitado no chão, no meio da rua, impossibilitado de se mexer por um polícia que lhe agarrava os braços e que com o joelho pressionava o seu pescoço. As imagens, captadas por telemóveis pelos transeuntes, mostram-no em desespero. A dizer que não podia respirar, a implorar para não o matarem. "I can't breathe", repete. As pessoas que passam na rua protestam também. Mas os polícias, esses, mantêm-se impávidos e serenos. O vídeo, que vi ontem, quase em lágrimas, é impressionante. Há um homem que morre ali mesmo à nossa frente (a versão oficial é de que George Floyd só morreu no hospital), no meio da rua, sufocado por um polícia-carniceiro, perante a impotência dos cidadãos (de nós todos).
É tão assustador.
E revoltante.
#icantbreathe
E mais uma reflexão:
Tenho sempre muitas dúvidas sobre a divulgação deste tipo de vídeos, tento evitá-los e só os vejo quando, por motivos profissionais, tenho mesmo de fazê-lo (foi o caso). E, no entanto, se não fossem estes vídeos nunca saberíamos como esta e outras mortes (e torturas e maus tratos e outros casos) tinham de facto acontecido. E isso também é assustador.
Se quiserem saber mais, leiam ESTE TEXTO da New Yorker, que vos dará uma visão mais abrangente sobre o caso e levanta algumas questões muito pertinentes.
Uma das coisas boas que aconteceu durante esta quarentena foi podermos dançar (ou só "chillar", como se diz) ao som dos sets do Branko. Ele festejou o desconfinamento com este momento maravilhoso, num terraço de Lisboa:
Uma das coisas boas que aconteceu durante esta quarentena foi podermos dançar (ou só "chillar", como se diz) ao som dos sets do Branko. Ele festejou o desconfinamento com este momento maravilhoso, num terraço de Lisboa:
Um dia mais tarde, quando os netos nos perguntarem como foi, mostramos-lhes ESTA reportagem da Cândida Pinto (RTP), intitulada "Os dias da quarentena" e filmada em Lisboa durante o mês de abril. Não tem tudo, claro, mas tem muita coisa e muitas pistas para percebermos o que se está a passar, longe das conferências de imprensa diárias com números de mortos e infetados, longe das curvas das estatísticas sobre doentes ou sobre desemprego ou sobre outra coisa qualquer. Porque todos os números têm sempre rostos. E pessoas. E histórias.
Todas diferentes.
E, no entanto, todas a falarem disto: da falta que o outro nos faz.
Um dia mais tarde, quando os netos nos perguntarem como foi, mostramos-lhes ESTA reportagem da Cândida Pinto (RTP), intitulada "Os dias da quarentena" e filmada em Lisboa durante o mês de abril. Não tem tudo, claro, mas tem muita coisa e muitas pistas para percebermos o que se está a passar, longe das conferências de imprensa diárias com números de mortos e infetados, longe das curvas das estatísticas sobre doentes ou sobre desemprego ou sobre outra coisa qualquer. Porque todos os números têm sempre rostos. E pessoas. E histórias.
Todas diferentes.
E, no entanto, todas a falarem disto: da falta que o outro nos faz.
Sempre que se fala em "distância de segurança" no teatro lembro-me daquele dia longínquo em que nos sentámos na primeira fila da Sala Garrett, no Teatro Nacional D. Maria II, para ver o Rei Lear e quase podia tocar no Ruy de Carvalho, via as gotas de suor a escorrer-lhe na testa, os perdigotos furiosos a saírem da sua boca. Ou então lembro-me de Rua de Sentido Único, que Mónica Calle apresentou na Casa do Conveniente do Cais do Sodré: éramos dois espectadores de cada vez, às escuras, num quarto com ela, ali tão próxima que sentíamos o calor do seu corpo no nosso. Ou então lembro-me dos corpos todos, seminus, semivestidos, envoltos em sabe-se lá que movimentos nos tantos espetáculos de dança. Lembro-me de subir eu mesma ao palco para dançar com gente desconhecida depois de Fica no Singelo, de Clara Andermatt. Lembro-me da emoção que é estar numa sala cheia, das lágrimas e dos risos partilhados com amigos e com estranhos. De um sentimento de comunidade a que é impossível ficar imune. Lembro-me de tantos espetáculos e momentos e sensações que hoje em dia, perante as novas regras de segurança exigidas pela covid-19, pura e simplesmente não seriam possíveis.
Que teatro será possível quando não nos podemos tocar nem sequer aproximar? Quando nem sequer quem está no palco tem essa liberdade?
Imaginar o teatro com distanciamento é como imaginar Romeu e Julieta sem o beijo, não é possível, disse-me o Miguel Fragata. AQUI estão algumas das inquietações dos artistas dos palcos sobre como vai ser.
Sempre que se fala em "distância de segurança" no teatro lembro-me daquele dia longínquo em que nos sentámos na primeira fila da Sala Garrett, no Teatro Nacional D. Maria II, para ver o Rei Lear e quase podia tocar no Ruy de Carvalho, via as gotas de suor a escorrer-lhe na testa, os perdigotos furiosos a saírem da sua boca. Ou então lembro-me de Rua de Sentido Único, que Mónica Calle apresentou na Casa do Conveniente do Cais do Sodré: éramos dois espectadores de cada vez, às escuras, num quarto com ela, ali tão próxima que sentíamos o calor do seu corpo no nosso. Ou então lembro-me dos corpos todos, seminus, semivestidos, envoltos em sabe-se lá que movimentos nos tantos espetáculos de dança. Lembro-me de subir eu mesma ao palco para dançar com gente desconhecida depois de Fica no Singelo, de Clara Andermatt. Lembro-me da emoção que é estar numa sala cheia, das lágrimas e dos risos partilhados com amigos e com estranhos. De um sentimento de comunidade a que é impossível ficar imune. Lembro-me de tantos espetáculos e momentos e sensações que hoje em dia, perante as novas regras de segurança exigidas pela covid-19, pura e simplesmente não seriam possíveis.
Que teatro será possível quando não nos podemos tocar nem sequer aproximar? Quando nem sequer quem está no palco tem essa liberdade?
Imaginar o teatro com distanciamento é como imaginar Romeu e Julieta sem o beijo, não é possível, disse-me o Miguel Fragata. AQUI estão algumas das inquietações dos artistas dos palcos sobre como vai ser.
As aulas do meu filho mais velho, que está no 10º ano, têm sido TODAS assim:
Os professores mandam lindas mensagens, na classroom ou no mail, a anunciar bom dia, meus queridos hoje vamos estudar *qualquer coisa*, vejam por favor o manual da página x à página y. Depois, no dia seguinte, perguntam: já leram? têm dúvidas? Resolvam agora os exercícios da página z. E há uns que mandam mais uns power point ou uns pdf. E no dia seguinte mandam uma ficha ou um questionário ou outra coisa qualquer para eles fazerem e mostrarem que estão a acompanhar. E depois concluem: muito bem, agora que já terminámos esta unidade, vamos avançar para a unidade seguinte.
Juro.
É isto.
E com este método fantástico os miúdos já deram a guerra entre absolutistas e liberais e estão agora a dar o setembrismo e o Costa Cabral (em História), também já deram montes de coisas sobre a inflacção, em Economia, e agora estão a dar "A atividade produtiva e a formação dos rendimentos; Rendimento e valor acrescentado. A repartição funcional dos rendimentos. A remuneração do trabalho. O salário. A remuneração do capital – renda, juro e lucro. Rendimentos primários e seus destinatários." (estou a copiar o sumário de uma das aulas); em Filosofia tem sido um ver-se-te-avias com direito, ética e política, Kant e John Stuart Mill, e agora belos textos sobre o contratualismo e o naturalismo. E por aí fora.
Tudo coisas simples, como se vê. Tudo assim, com textos que, como devem imaginar, todos os alunos lêem com a maior das atenções e todos entendem, claro. Raramente há alunos a dizer que têm dúvidas. Imagine-se. E os professores acham isto normal. Já leram? Óptimo. Se não leram, paciência. Avançamos. Sem explicações, sem debate, sem cá conversas, que os professores servem é para dar textos e material de apoio, não sabiam? Pois, eu também não.
Quantos alunos vão efectivamente aprender alguma coisa? Três ou quatro em cada turma? Provavelmente só aqueles bons alunos que se interessam realmente pela escola e que têm objectivos definidos. Muitos deles neste momento já desistiram de acompanhar. E a grande maioria está a cumprir os mínimos, a ler os textos na diagonal, a responder mal e porcamente aos questionários, a dizer "bom dia, professora" para marcar o ponto virtual ao mesmo tempo que diz piadas no chat da turma no WhatsApp.
Na escola da pandemia, o importante é poder escrever no sumário que a aula existiu e que a matéria foi dada. O importante é cumprir os objectivos de secretaria. Os alunos são meros figurantes nesta fantochada.
Isto não é escola. Isto não contribui em nada para a vida dos alunos. Isto não serve para nada. Isto é uma perda de tempo.
As aulas do meu filho mais velho, que está no 10º ano, têm sido TODAS assim:
Os professores mandam lindas mensagens, na classroom ou no mail, a anunciar bom dia, meus queridos hoje vamos estudar *qualquer coisa*, vejam por favor o manual da página x à página y. Depois, no dia seguinte, perguntam: já leram? têm dúvidas? Resolvam agora os exercícios da página z. E há uns que mandam mais uns power point ou uns pdf. E no dia seguinte mandam uma ficha ou um questionário ou outra coisa qualquer para eles fazerem e mostrarem que estão a acompanhar. E depois concluem: muito bem, agora que já terminámos esta unidade, vamos avançar para a unidade seguinte.
Juro.
É isto.
E com este método fantástico os miúdos já deram a guerra entre absolutistas e liberais e estão agora a dar o setembrismo e o Costa Cabral (em História), também já deram montes de coisas sobre a inflacção, em Economia, e agora estão a dar "A atividade produtiva e a formação dos rendimentos; Rendimento e valor acrescentado. A repartição funcional dos rendimentos. A remuneração do trabalho. O salário. A remuneração do capital – renda, juro e lucro. Rendimentos primários e seus destinatários." (estou a copiar o sumário de uma das aulas); em Filosofia tem sido um ver-se-te-avias com direito, ética e política, Kant e John Stuart Mill, e agora belos textos sobre o contratualismo e o naturalismo. E por aí fora.
Tudo coisas simples, como se vê. Tudo assim, com textos que, como devem imaginar, todos os alunos lêem com a maior das atenções e todos entendem, claro. Raramente há alunos a dizer que têm dúvidas. Imagine-se. E os professores acham isto normal. Já leram? Óptimo. Se não leram, paciência. Avançamos. Sem explicações, sem debate, sem cá conversas, que os professores servem é para dar textos e material de apoio, não sabiam? Pois, eu também não.
Quantos alunos vão efectivamente aprender alguma coisa? Três ou quatro em cada turma? Provavelmente só aqueles bons alunos que se interessam realmente pela escola e que têm objectivos definidos. Muitos deles neste momento já desistiram de acompanhar. E a grande maioria está a cumprir os mínimos, a ler os textos na diagonal, a responder mal e porcamente aos questionários, a dizer "bom dia, professora" para marcar o ponto virtual ao mesmo tempo que diz piadas no chat da turma no WhatsApp.
Na escola da pandemia, o importante é poder escrever no sumário que a aula existiu e que a matéria foi dada. O importante é cumprir os objectivos de secretaria. Os alunos são meros figurantes nesta fantochada.
Isto não é escola. Isto não contribui em nada para a vida dos alunos. Isto não serve para nada. Isto é uma perda de tempo.
Voltamos ao assunto? Voltamos, pois, é necessário voltar, agora que já sabemos exactamente o que é isto e como é que funciona, temos que voltar. E denunciar todas as absurdidades que estão a acontecer.
Comecemos por aqui:
As aulas de educação física do mais novo. Começaram por ser videochamadas com aulas teóricas, o professor a mostrar slides sobre aptidão física e a mandar-lhes questionários para eles resolverem. Os putos rapidamente se fartaram. Na última aula, a videochamada resumiu-se a "bom dia, estás bom? hoje não há aula, vou só marcar a tua presença e podes sair". E pronto. Para quê? Com que objectivo? O que é que estamos a ensinar aos miúdos com isto? Que temos de ser obedientes e picar o ponto, mesmo que isso não sirva para coisa nenhuma?
As aulas de educação física do mais velho são igualmente hilariantes. A professora manda vídeos a explicar exercícios e pede aos miúdos que pratiquem e façam um vídeo. Por exemplo, as várias técnicas de manipular a bola no basquetebol, desporto que, como se sabe, eles estão proibidos de praticar. Para quê? Para os alunos praticarem exercício físico? Para se mexerem e manterem saudáveis? Não. Para provar que fizeram. Que são bem mandados e cumpridores e certinhos, que a gente não quer saber se tu sabes jogar basquete, a gente quer é que tu cumpras as ordens.
O importante é poder escrever no sumário que a aula existiu e que a matéria foi dada. O importante é cumprir os objectivos de secretaria. Os alunos são meros figurantes nesta fantochada.
Isto não é escola. Isto não contribui em nada para a vida dos alunos. Isto não serve para nada. Isto é uma perda de tempo.
Voltamos ao assunto? Voltamos, pois, é necessário voltar, agora que já sabemos exactamente o que é isto e como é que funciona, temos que voltar. E denunciar todas as absurdidades que estão a acontecer.
Comecemos por aqui:
As aulas de educação física do mais novo. Começaram por ser videochamadas com aulas teóricas, o professor a mostrar slides sobre aptidão física e a mandar-lhes questionários para eles resolverem. Os putos rapidamente se fartaram. Na última aula, a videochamada resumiu-se a "bom dia, estás bom? hoje não há aula, vou só marcar a tua presença e podes sair". E pronto. Para quê? Com que objectivo? O que é que estamos a ensinar aos miúdos com isto? Que temos de ser obedientes e picar o ponto, mesmo que isso não sirva para coisa nenhuma?
As aulas de educação física do mais velho são igualmente hilariantes. A professora manda vídeos a explicar exercícios e pede aos miúdos que pratiquem e façam um vídeo. Por exemplo, as várias técnicas de manipular a bola no basquetebol, desporto que, como se sabe, eles estão proibidos de praticar. Para quê? Para os alunos praticarem exercício físico? Para se mexerem e manterem saudáveis? Não. Para provar que fizeram. Que são bem mandados e cumpridores e certinhos, que a gente não quer saber se tu sabes jogar basquete, a gente quer é que tu cumpras as ordens.
O importante é poder escrever no sumário que a aula existiu e que a matéria foi dada. O importante é cumprir os objectivos de secretaria. Os alunos são meros figurantes nesta fantochada.
Isto não é escola. Isto não contribui em nada para a vida dos alunos. Isto não serve para nada. Isto é uma perda de tempo.
Dia 50, sexta-feira, 1 de maio Foi um dia bom. Graças à minha vizinha Susana almocei cachupa deliciosa. Fiz um bolo de iogurte para o Pedro e para os amigos do terraço. E eles brincaram até às nove da noite. Consegui ficar duas horas com uma máscara na cara, conversar, rir e até cantar os parabéns a uma amiga. Mais difícil é não poder abraçar, beijar e tocar as pessoas de que gostamos. Ainda assim, é bem capaz de ter sido o melhor momento destes últimos dias. E, para terminar, vimos O Império do Sol. Há que tempos que queria mostrar este filme aos miúdos. Quase três horas de Spielberg old school, mas resistimos os três, até o adolescente rezingão. Foi um dia bom. Um dia para ganhar fôlego.
Dia 51, sábado, 2 de maio Pronto, fiquem descansados, já comprei meia dúzia de máscaras e uma pequena embalagem de gel desinfectante. Mais vale tarde do que nunca. Mas fiquem a saber que só usarei estas máscaras em último caso. Uma pessoa não deixou de usar palhinhas e sacos de plástico para agora desatar a usar máscaras descartáveis a torto e a direito. E também vos digo: se já se pode ir à manicure se calhar já era tempo de a câmara de Lisboa voltar a recolher os reciclados como deve ser, não?
Dia 52, domingo, 3 de maio Domingo. O Pedro lá conseguiu terminar os trabalhos da semana. E já começou a receber novos trabalhos dos professores... Limpámos a casa toda. Aproveitei o calor e lavei os cortinados da sala. O mais chato foi pôr as argolinhas todas no lugar outra vez. Os rapazes estiveram umas quatro horas no terraço a brincar com os amigos. Hoje havia imensa gente nos terraços, miúdos e graúdos. Parecia mesmo uma daquelas tardes de verão. Este fim de semana, o Fox Movies está a dar os vários Indiana Jones. Claro que já os vimos todos várias vezes mas não conseguimos resistir. (E num dos intervalos vi, finalmente, a Mariza a cantar. God. Tudo mau. Aliás, a publicidade da quarentena é toda supostamente muito inspiradora e a puxar à lágrima, ou seja, bastante irritante.) A propósito: não tenho grande paciência para os dias disto e daquilo e muito menos para o dia da mãe. Cada um tem as suas telhas e a minha é esta.
Os dias seguintes Entretanto, começou o desconfinamento. Esta semana, eu já saí de casa para trabalhar, uma vez. E o António também já saiu de casa para ir ter com os amigos, uma vez. Munidos de máscaras e com gel para desinfectar as mãos, mas estamos a tentar recuperar alguma normalidade, ainda pouco normal. A ver vamos.
Dia 50, sexta-feira, 1 de maio Foi um dia bom. Graças à minha vizinha Susana almocei cachupa deliciosa. Fiz um bolo de iogurte para o Pedro e para os amigos do terraço. E eles brincaram até às nove da noite. Consegui ficar duas horas com uma máscara na cara, conversar, rir e até cantar os parabéns a uma amiga. Mais difícil é não poder abraçar, beijar e tocar as pessoas de que gostamos. Ainda assim, é bem capaz de ter sido o melhor momento destes últimos dias. E, para terminar, vimos O Império do Sol. Há que tempos que queria mostrar este filme aos miúdos. Quase três horas de Spielberg old school, mas resistimos os três, até o adolescente rezingão. Foi um dia bom. Um dia para ganhar fôlego.
Dia 51, sábado, 2 de maio Pronto, fiquem descansados, já comprei meia dúzia de máscaras e uma pequena embalagem de gel desinfectante. Mais vale tarde do que nunca. Mas fiquem a saber que só usarei estas máscaras em último caso. Uma pessoa não deixou de usar palhinhas e sacos de plástico para agora desatar a usar máscaras descartáveis a torto e a direito. E também vos digo: se já se pode ir à manicure se calhar já era tempo de a câmara de Lisboa voltar a recolher os reciclados como deve ser, não?
Dia 52, domingo, 3 de maio Domingo. O Pedro lá conseguiu terminar os trabalhos da semana. E já começou a receber novos trabalhos dos professores... Limpámos a casa toda. Aproveitei o calor e lavei os cortinados da sala. O mais chato foi pôr as argolinhas todas no lugar outra vez. Os rapazes estiveram umas quatro horas no terraço a brincar com os amigos. Hoje havia imensa gente nos terraços, miúdos e graúdos. Parecia mesmo uma daquelas tardes de verão. Este fim de semana, o Fox Movies está a dar os vários Indiana Jones. Claro que já os vimos todos várias vezes mas não conseguimos resistir. (E num dos intervalos vi, finalmente, a Mariza a cantar. God. Tudo mau. Aliás, a publicidade da quarentena é toda supostamente muito inspiradora e a puxar à lágrima, ou seja, bastante irritante.) A propósito: não tenho grande paciência para os dias disto e daquilo e muito menos para o dia da mãe. Cada um tem as suas telhas e a minha é esta.
Os dias seguintes Entretanto, começou o desconfinamento. Esta semana, eu já saí de casa para trabalhar, uma vez. E o António também já saiu de casa para ir ter com os amigos, uma vez. Munidos de máscaras e com gel para desinfectar as mãos, mas estamos a tentar recuperar alguma normalidade, ainda pouco normal. A ver vamos.
Escrevi-o no primeiro dia: não estamos todos em casa. Para alguns poderem publicar no instagram fotografias dos almoços que encomendam na ubereats, felizes e contentes por estarem em casa, a beber um copo de vinho na varanda, a devorar séries na netflix, a falar com os amigos no zoom e a mandar bitaites #stayathome, há uma multidão de gente a trabalhar na agricultura, nas fábricas, na distribuição, nos mercados e supermercados, nos restaurantes, nos transportes, na recolha do lixo, nas limpezas, na segurança, na comunicação social, nos hospitais, nas farmácias, nos lares, na assistência social, na construção, na manutenção, nas funerárias, em muitos outras atividades. Não são meia dúzia, são milhares de pessoas. Que nos últimos 50 dias continuaram a fazer a sua vida normal, a acordar às 5 da manhã, a esperar meia hora por um comboio, a andar em autocarros cheios de gente, a trabalhar imenso, provavelmente com dificuldades e preocupações acrescidas e - muitos deles - a ganharem muito mal. Também continuou a haver gente a viver na rua, em barracas, em sítios sem condições. Para todas essas pessoas não houve confinamento.
Sim, a romantização da quarentena é um privilégio de classe. Não temos que nos martirizar por causa disso. Mas um bocadinho de consciência social não nos ficaria mal.
Escrevi-o no primeiro dia: não estamos todos em casa. Para alguns poderem publicar no instagram fotografias dos almoços que encomendam na ubereats, felizes e contentes por estarem em casa, a beber um copo de vinho na varanda, a devorar séries na netflix, a falar com os amigos no zoom e a mandar bitaites #stayathome, há uma multidão de gente a trabalhar na agricultura, nas fábricas, na distribuição, nos mercados e supermercados, nos restaurantes, nos transportes, na recolha do lixo, nas limpezas, na segurança, na comunicação social, nos hospitais, nas farmácias, nos lares, na assistência social, na construção, na manutenção, nas funerárias, em muitos outras atividades. Não são meia dúzia, são milhares de pessoas. Que nos últimos 50 dias continuaram a fazer a sua vida normal, a acordar às 5 da manhã, a esperar meia hora por um comboio, a andar em autocarros cheios de gente, a trabalhar imenso, provavelmente com dificuldades e preocupações acrescidas e - muitos deles - a ganharem muito mal. Também continuou a haver gente a viver na rua, em barracas, em sítios sem condições. Para todas essas pessoas não houve confinamento.
Sim, a romantização da quarentena é um privilégio de classe. Não temos que nos martirizar por causa disso. Mas um bocadinho de consciência social não nos ficaria mal.
Fartei-me de chorar a ver a segunda temporada de After Life. A primeira temporada já tinha sido de partir o coração, mas acho que esta é ainda mais devastadora. Tony (Ricky Gervais) já não está naquele estado de desespero de não querer continuar a viver sem a mulher (bom, pelo menos na maior parte do tempo), mas também já percebeu que a tristeza não vai passar, portanto trata-se de tentar aceitar que esta é a sua nova condição. A vida continua, seja como for, ainda que nós não façamos nada para isso. As pessoas à volta de Tony podem ser um "bunch of losers" mas são elas que lhe permitem encontrar algum sentido nos dias que passam, uns a seguir aos outros, entre as saudades e a enorme solidão.
Não tenho visto muitas coisas mas durante a quarentena vi mais duas séries muito boas, também na Netflix:
- Unorthodox, sobre uma rapariga que sai de uma comunidade judia ultra-ortodoxa (escrevi sobre ela AQUI, se gostaram de Shtisel acho que vão gostar mais desta);
- Unbelievable, que nos coloca numa investigação criminal a um violador em série, mas de uma maneira bastante realista, muito longe dos CSI do costume, e que nos mostra de maneira brutal como é que algumas vítimas (mulheres) são tratadas nestes casos.
Fartei-me de chorar a ver a segunda temporada de After Life. A primeira temporada já tinha sido de partir o coração, mas acho que esta é ainda mais devastadora. Tony (Ricky Gervais) já não está naquele estado de desespero de não querer continuar a viver sem a mulher (bom, pelo menos na maior parte do tempo), mas também já percebeu que a tristeza não vai passar, portanto trata-se de tentar aceitar que esta é a sua nova condição. A vida continua, seja como for, ainda que nós não façamos nada para isso. As pessoas à volta de Tony podem ser um "bunch of losers" mas são elas que lhe permitem encontrar algum sentido nos dias que passam, uns a seguir aos outros, entre as saudades e a enorme solidão.
Não tenho visto muitas coisas mas durante a quarentena vi mais duas séries muito boas, também na Netflix:
- Unorthodox, sobre uma rapariga que sai de uma comunidade judia ultra-ortodoxa (escrevi sobre ela AQUI, se gostaram de Shtisel acho que vão gostar mais desta);
- Unbelievable, que nos coloca numa investigação criminal a um violador em série, mas de uma maneira bastante realista, muito longe dos CSI do costume, e que nos mostra de maneira brutal como é que algumas vítimas (mulheres) são tratadas nestes casos.
Dia 43, sexta-feira, 24 de abril Hoje, depois de passar a manhã a estudar matemática, fui às compras, diverti-me a inventar histórias com os títulos dos livros, a seguir demorei horas a arrumar os livros todos nos seus lugares, respondi a um inquérito do Oceanário, votei num cartaz para o Todos, transformei o hall de entrada num ginásio e fiz uma aula de "glúteos + abdominais + pernas", vi dois episódios e meio de uma série e fui passear com o Pedro. Já faltou mais para me pôr a fazer pão. De facto, a quarentena sem trabalhar é outra coisa (mas amanhã estou outra vez a bulir que é para não me habituar). Doem-me bastante as pernas. Acho que estou a acordar músculos que estavam adormecidos há décadas. Amanhã experimento o pilates.
Dia 44, sábado, 25 de abril De manhã estudámos o Estado Novo, o que até fazia todo o sentido. À 1 comecei a trabalhar. Às 3 fiz uma pausa, levei o computador para a janela da cozinha e pus o Zeca a cantar. Oh mãe, a sério?, suspiraram eles, sem se moverem do sofá. Cantei feliz, apesar de envergonhada. Apareceram dois ou três vizinhos. Nada de entusiasmos. Fui à janela da frente e pus a cabeça de fora para acenar a uma vizinha lá de cima que também tinha o Grândola a tocar. Voltei ao meu trabalho. O António, que desde que isto começou ainda não tinha ido mais longe do que o terraço, decidiu sair de casa para ir comprar gomas. A adolescência é, de facto, um lugar estranho. O Pedro foi ao terraço festejar o aniversário de uma vizinha. Eram uma meia dúzia de miúdos a brincar às escondidas e era já de noite quando o chamei para jantar. Agora, e seguindo as indicações das professoras de história, estivemos a ver o Capitães de Abril. Mas foi uma seca para todos, incluindo para mim que não me consegui abstrair da falta de sincronização entre a voz e os lábios e achei o filme de uma maneira geral bastante mauzinho. Valha-nos a Revolução que foi bonita e nos deu a democracia e a liberdade.
Dia 45, domingo, 26 de abril De manhã acabei de ver a série Unebelievable na Netflix e agora à noite vimos o Hotel Mumbai - digamos que hoje a minha fé na bondade das pessoas está um pouco pelas ruas da amargura. Há coisas que não mudam: estamos confinados mas continua a não ser fixe trabalhar ao fim-de-semana. Há coisas que mudam: estar de folga à segunda-feira costuma significar tempo para mim e para as minhas cenas, mas amanhã vai ser só mais um dia como os outros.
Dia 46, segunda-feira, 27 de abril Às segundas os professores mandam os planos de trabalho da semana. Os professores estão a dar matéria nova, a toda a velocidade. Lê o manual e resolve a ficha. Agora faz a correção. Agora vê o vídeo. Faz um trabalho de pesquisa. Copia a definição para o caderno. Faz mais uma ficha. E a seguir temos videochamada para esclarecer dúvidas. Um professor com 20 a 30 alunos de 11 anos em videochamada a darem os números racionais ou o estado novo ou o sistema reprodutor. Desliguem o micro, não se ouve, podem calar-se? E nisto vamos avançando mais uma páginas. Não tarda nada chegamos ao fim do livro e lançamos um foguete. Está tudo bem. Eu controlo tudo, mais de perto ou mais de longe, conforme o caso, temos computadores e agora até tenho algum tempo. Não me queixo. E no fundo eu até gosto de estudar com eles algumas matérias (e nas outras dou um jeito). Mas é muito exigente. E se eu - que tenho estas condições - acho exigente, então, de certeza que há muitos miúdos que estão a ficar para trás porque não têm quem lhes explique, quem controle, quem os mande ficar sentados, quem os corrija, quem os lembre dos prazos, quem os incentive, quem se zangue (às vezes é preciso). Quem lhes diga: vai brincar, paciência, entregas esse trabalho fora do prazo, não faz mal. Continuo com muitas dúvidas sobre isto tudo.
Dia 47, terça-feira, 28 de abril O dia começou com um senhor a bater-me à porta para me entregar uma prenda-surpresa-deliciosa da minha irmã. E acabou comigo a adormecer no sofá pouco depois das dez da noite. Os dias de quarentena são assim como as relações. No início, parece mesmo que é desta que vamos cumprir o plano de ginástica e fazer pão e quem sabe até jogar monopólio com os putos. Mas pouco depois percebemos que afinal vai ser só mais um dia como os outros, com trabalhos da escola, limpeza da casa, passeios higiénicos e, com sorte, um filmezeco da Netflix.
Dia 48, quarta-feira, 29 de abril Começou bem. Com uma chuvinha mas bem. Fomos fazer o cartão de cidadão do Pedro, que estava marcado há meses mas que foi pago como urgente (lol), e aproveitámos para fazer a caminhada higiénica e comprar fruta e legumes, tudo de uma assentada. Às 11.30 já estava outra vez em casa, de banho tomado, devidamente higienizada e confinada. E pronto. A partir daí foi só chateações, entre trabalhos da escola e reuniões de zoom, mails e grupos de WhatsApp de trabalho. Nem sequer jantei. Acabei agora mesmo de comer um prato de Nestum e vou direitinha para a cama. Um dia ainda me hão de contar como é que funciona isso de "ter demasiado tempo livre". Estou curiosa.
Dia 49, quinta-feira, 30 de abril Hoje o Pedro teve cinco "aulas síncronas", incluindo uma aula teórica de educação física, e as três últimas aulas sem sequer ter intervalos (isto está tudo a correr lindamente, como se vê). Às 20 para as seis, dez minutos antes do fim da aula de ciências, e já com fernicoques (bela palavra) no corpo, enquanto a professora explicava o teste do pezinho, olhou para mim e: posso desligar? Eu estava mesmo a acabar o meu trabalho, por isso: podes. Desligámos os dois e fomos passear. Já há um arrumador no Fonte Nova. E usa máscara. É a normalidade a regressar de forma bastante anormal. Ao serão vimos O Impossível. O António já tinha visto e anunciou que não ia ver outra vez porque era muito triste. Eu também já tinha visto mas nunca recuso uma oportunidade para derramar uma lagrimita.
Hoje é Dia do Trabalhador e eu tinha tantas coisas a dizer sobre o assunto. Mas fica só esta música, para dançar e libertar todos os demónios:
Dia 43, sexta-feira, 24 de abril Hoje, depois de passar a manhã a estudar matemática, fui às compras, diverti-me a inventar histórias com os títulos dos livros, a seguir demorei horas a arrumar os livros todos nos seus lugares, respondi a um inquérito do Oceanário, votei num cartaz para o Todos, transformei o hall de entrada num ginásio e fiz uma aula de "glúteos + abdominais + pernas", vi dois episódios e meio de uma série e fui passear com o Pedro. Já faltou mais para me pôr a fazer pão. De facto, a quarentena sem trabalhar é outra coisa (mas amanhã estou outra vez a bulir que é para não me habituar). Doem-me bastante as pernas. Acho que estou a acordar músculos que estavam adormecidos há décadas. Amanhã experimento o pilates.
Dia 44, sábado, 25 de abril De manhã estudámos o Estado Novo, o que até fazia todo o sentido. À 1 comecei a trabalhar. Às 3 fiz uma pausa, levei o computador para a janela da cozinha e pus o Zeca a cantar. Oh mãe, a sério?, suspiraram eles, sem se moverem do sofá. Cantei feliz, apesar de envergonhada. Apareceram dois ou três vizinhos. Nada de entusiasmos. Fui à janela da frente e pus a cabeça de fora para acenar a uma vizinha lá de cima que também tinha o Grândola a tocar. Voltei ao meu trabalho. O António, que desde que isto começou ainda não tinha ido mais longe do que o terraço, decidiu sair de casa para ir comprar gomas. A adolescência é, de facto, um lugar estranho. O Pedro foi ao terraço festejar o aniversário de uma vizinha. Eram uma meia dúzia de miúdos a brincar às escondidas e era já de noite quando o chamei para jantar. Agora, e seguindo as indicações das professoras de história, estivemos a ver o Capitães de Abril. Mas foi uma seca para todos, incluindo para mim que não me consegui abstrair da falta de sincronização entre a voz e os lábios e achei o filme de uma maneira geral bastante mauzinho. Valha-nos a Revolução que foi bonita e nos deu a democracia e a liberdade.
Dia 45, domingo, 26 de abril De manhã acabei de ver a série Unebelievable na Netflix e agora à noite vimos o Hotel Mumbai - digamos que hoje a minha fé na bondade das pessoas está um pouco pelas ruas da amargura. Há coisas que não mudam: estamos confinados mas continua a não ser fixe trabalhar ao fim-de-semana. Há coisas que mudam: estar de folga à segunda-feira costuma significar tempo para mim e para as minhas cenas, mas amanhã vai ser só mais um dia como os outros.
Dia 46, segunda-feira, 27 de abril Às segundas os professores mandam os planos de trabalho da semana. Os professores estão a dar matéria nova, a toda a velocidade. Lê o manual e resolve a ficha. Agora faz a correção. Agora vê o vídeo. Faz um trabalho de pesquisa. Copia a definição para o caderno. Faz mais uma ficha. E a seguir temos videochamada para esclarecer dúvidas. Um professor com 20 a 30 alunos de 11 anos em videochamada a darem os números racionais ou o estado novo ou o sistema reprodutor. Desliguem o micro, não se ouve, podem calar-se? E nisto vamos avançando mais uma páginas. Não tarda nada chegamos ao fim do livro e lançamos um foguete. Está tudo bem. Eu controlo tudo, mais de perto ou mais de longe, conforme o caso, temos computadores e agora até tenho algum tempo. Não me queixo. E no fundo eu até gosto de estudar com eles algumas matérias (e nas outras dou um jeito). Mas é muito exigente. E se eu - que tenho estas condições - acho exigente, então, de certeza que há muitos miúdos que estão a ficar para trás porque não têm quem lhes explique, quem controle, quem os mande ficar sentados, quem os corrija, quem os lembre dos prazos, quem os incentive, quem se zangue (às vezes é preciso). Quem lhes diga: vai brincar, paciência, entregas esse trabalho fora do prazo, não faz mal. Continuo com muitas dúvidas sobre isto tudo.
Dia 47, terça-feira, 28 de abril O dia começou com um senhor a bater-me à porta para me entregar uma prenda-surpresa-deliciosa da minha irmã. E acabou comigo a adormecer no sofá pouco depois das dez da noite. Os dias de quarentena são assim como as relações. No início, parece mesmo que é desta que vamos cumprir o plano de ginástica e fazer pão e quem sabe até jogar monopólio com os putos. Mas pouco depois percebemos que afinal vai ser só mais um dia como os outros, com trabalhos da escola, limpeza da casa, passeios higiénicos e, com sorte, um filmezeco da Netflix.
Dia 48, quarta-feira, 29 de abril Começou bem. Com uma chuvinha mas bem. Fomos fazer o cartão de cidadão do Pedro, que estava marcado há meses mas que foi pago como urgente (lol), e aproveitámos para fazer a caminhada higiénica e comprar fruta e legumes, tudo de uma assentada. Às 11.30 já estava outra vez em casa, de banho tomado, devidamente higienizada e confinada. E pronto. A partir daí foi só chateações, entre trabalhos da escola e reuniões de zoom, mails e grupos de WhatsApp de trabalho. Nem sequer jantei. Acabei agora mesmo de comer um prato de Nestum e vou direitinha para a cama. Um dia ainda me hão de contar como é que funciona isso de "ter demasiado tempo livre". Estou curiosa.
Dia 49, quinta-feira, 30 de abril Hoje o Pedro teve cinco "aulas síncronas", incluindo uma aula teórica de educação física, e as três últimas aulas sem sequer ter intervalos (isto está tudo a correr lindamente, como se vê). Às 20 para as seis, dez minutos antes do fim da aula de ciências, e já com fernicoques (bela palavra) no corpo, enquanto a professora explicava o teste do pezinho, olhou para mim e: posso desligar? Eu estava mesmo a acabar o meu trabalho, por isso: podes. Desligámos os dois e fomos passear. Já há um arrumador no Fonte Nova. E usa máscara. É a normalidade a regressar de forma bastante anormal. Ao serão vimos O Impossível. O António já tinha visto e anunciou que não ia ver outra vez porque era muito triste. Eu também já tinha visto mas nunca recuso uma oportunidade para derramar uma lagrimita.
Hoje é Dia do Trabalhador e eu tinha tantas coisas a dizer sobre o assunto. Mas fica só esta música, para dançar e libertar todos os demónios: