Thursday, November 27, 2025

Bode expiatório

Aconteceu no início do mês: no podcast Interesting Times, do The New York Times, Ross Douthat convidou Helen Andrews and Leah Libresco Sargeant, apresentadas como escritoras conservadoras e críticas do feminismo, para debater o papel da mulher nas sociedades liberais. Helen Andrews é a autora do ensaio The Great Feminization, no qual argumenta que o feminismo falhou porque tornou as instituições demasiado feminas, expulsando delas os homens e as virtudes masculinas. Por outro lado, Leah Libresco Sargeant escreveu um livro intitulado The Dignity of Dependence, onde sugere que o feminismo liberal falhou ao obrigar as mulheres a suprimirem a sua natureza e a adaptarem-se a locais de trabalho e sistemas sociais feitos para os homens.


Na abertura, Douthat lançava o tema: "Men and women are different. That is a core premise of conservatism in the age of Trump, that liberalism and feminism have come to grief by pretending that the sexes are the same. But what does that difference really mean? Should the right be trying to roll back the entire feminist era? Or is there a form of conservative feminism that corrects liberalism’s mistakes?" A conversa desenrolou-se nestes termos,  discutindo em 2025 (!!!) a natureza das mulheres e de que forma a entrada da mulher no mercado de trabalho alterou os modos de trabalhar e afectou a sociedade, mas também criticando o feminismo, o movimento #metoo e a denominada cultura woke


Quando foi publicado no site do NYT, o podcast apareceu com este lindo título: "Did Women Ruin the Workplace?". Choveram críticas de todos os cantos do mundo e de (quase) todos os quadrantes políticos. De tal forma que o jornal se viu obrigado a mudar o título para "Did Liberal Feminism Ruin the Workplace?" - mas o mal já estava feito, as redes sociais são implacáveis a fixar tudo aquilo que preferíamos esquecer.


Na verdade, este debate veio só tornar ainda mais visível uma ideia que parece ter estado adormecida durante algumas décadas mas tem vindo novamente a ganhar força em canais de youtube e tiktok conservadores e machistas, espalhando-se como um vírus entre as cabeças tanto de jovens rapazes como de homens-feitos: o lugar natural das mulheres é em casa, a tomar conta da família e do lar, parindo e educando filhos, cozinhando e passando a ferro, e deixando o homem tomar contas das "coisas que realmente importam". Não vou aqui linkar nem sequer citar, mas a quantidade de pequenos e grandes influencers que tenho visto, lido e ouvido nos últimos tempos a dizer isto, por estas ou por outras palavras, de forma mais aberta ou com insinuações pouco subtis, tem-me deixado absolutamente abismada e furibunda. Como é possível que 200 anos depois de as feministas terem saído à rua para lutar pelos direitos das mulheres estejamos novamente a ter este tipo de conversas? 


Portanto, ainda a batalha feminista estava longe de ser vencida, ainda estávamos aqui a tentar desenvencilhar-nos do maldito patriarcado, a apontar as desigualdades salariais e a exigir maior equidade na divisão das tarefas domésticas, a desesperar com os números relativos à violêncida doméstica e a lutar pela criminalização do assédio sexual, quando fomos abalroadas pelas ideias conservadoras (eu diria reaccionárias) que tomaram conta da internet, da sociedade e do discurso político, bramindo contra todas as conquistas tão arduamente conseguidas até aqui. 


De que têm medo estes homens?


De perder os seus privilégios. 


É só isso.


Ainda assim, que estes tristes machos encontrem nas mulheres o bode expiatório perfeito para justificarem os seus fracassos existenciais até me parece compreensível. Mas que mulheres embarquem neste discurso (assim como imigrantes votaram em Trump sem perceber que eram o alvo das duas políticas; ou as classas trabalhadoras votam repetidamente em partidos que não defendem os seus interesses) mostra bem o tanto que ainda está por fazer. E é um bom lembrete para todos nós de que não há direitos adquidiridos, a luta é constante.We_Can_Do_It!_NARA_535413_-_Restoration_2.jpg


Segundo a Wikipédia: We Can Do It! (em português: Somos capazes!) é o título de um cartaz de propaganda criado nos Estados Unidos, em 1943, por J. Howard Miller para a empresa Westinghouse, com o objectivo de levantar o moral dos seus trabalhadores durante o esforço de guerra. O cartaz é baseado na fotografia em preto e branco de uma operária que então trabalhava na Base Aeronaval de Alameda, na Califórnia.


*


A correr atrás do prejuízo para cumprir o tema do largo da semana passada, que era bode expiatório. E lembram-se do dia em que não consegui escrever sobre fúrias? Pois aqui estão elas, ou pelo menos parte das fúrias que me têm assolado nos últimos tempos.


Ah, e vão ler as minhas vizinhas, que vale sempre a pena:


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Monday, November 17, 2025

Come see me in the good light

 “This is the beginning of a nightmare, I thought … my worst fear come true. But stay with me … because my story is about happiness being easier to find once we realize we do not have forever to find it."


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Come seem me in the good light é um documentário realizado por Ryan White que acompanha os últimos meses de vida da poeta Andrea Gibson, a quem foi diagnostiscado cancro nos ovários em 2021. Depois de uma cirurgia, vários ciclos de quimioterapia e outros tratamentos experimentais, Gibson morreu em julho de 2025, pouco antes de completar 50 anos. Encontramo-la fragilizada mas sempre a tentar aproveitar o máximo dos dias, apesar das dores, dos tratamentos, dos resultados pouco animadores das análises, da constatação de que as mestátases se tinham, finalmente, espalhado para o abdómen. Em todos estes momentos, Gibson conta com o apoio incondicional da sua companheira, a também poeta Megan Falley, com quem vive numa casa no campo em Longmont, Colorado. E encontra conforto no grupo de amigas, nos seus cães, no telefonema diário para a mãe, nas rolas que vêm cantar na árvore em frente do terraço. Num último espectáculo de spoken word, num teatro esgotado.


Como encarar a morte quando a sabemos ao virar da esquina? Como aceitar o fim sem rancor nem medo? As palavras de Gibson, a sua tranquilidade, o seu discernimento, o amor e a alegria que encontra em todas as pequenas coisas são uma inspiração.


Claro que é impossível falar da morte sem recorrer a clichés e só uma pessoa de coração de pedra conseguirá ver este filme sem chorar. Mas se é para ser lamechas, que seja aqui, que seja assim. 


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Sunday, November 16, 2025

O Agente Secreto: o cinema brasileiro diz ainda estou aqui

Não deve ser fácil ser o filme brasileiro que vem depois do sucesso de Ainda Estou Aqui.


O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, não pediu essa comparação e é injusto fazê-la, tenho plena noção disso. E, no entanto, aqui estamos, inevitavelmente. Porque é um filme brasileiro, e são poucos os filmes brasileiros que estreiam nas salas portuguesas. Porque é um filme brasileiro que se estreou em Cannes e tem sido premiado internacionalmente. Porque é o candidato brasileiro aos Óscares. Porque é um filme sobre a ditadura. 


A partir daqui, não há muito mais que una os dois filmes. 


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Wagner Moura (óptimo) interpreta Armando, um engenheiro viúvo que regressa ao Recife em pleno carnaval sob uma falsa identidade, para vir buscar o filho pequeno que vive com os avós maternos e ir com ele para o estrangeiro, fugindo das ameaças de morte. Enquanto espera pelos documentos, mora na casa de dona Sebastiana, uma velhota rija que alberga um grupo de gente em fuga, que não se enquadra nas regras vigentes, incluindo um gato com dois focinhos.


O Agente Secreto é um filme policial cuja acção se passa no Recife, em 1977. Kleber Mendonça Filho é muito bom a dar-nos o ambiente da época e do local. Os polícias corruptos, o carnaval que tudo permite, o suor nos corpos, a opressão da ditadura, a vida nas margens. A música, claro, a música é excelente e certeira. Como mosaico é um filme incrível. Só por isso vale a pena.


O realizador recorre à estética cinematográfica dos anos 70, sobretudo dos filmes de terror muito populares nessa época. Não é só Tubarão, de Spielberg, que é referido de diversas maneiras, causando pesadelos e influenciando o imaginário de todos, até mesmo daqueles que não viram o filme. Kleber Mendonça Filho traz para O Agente Secreto um pouco do gore de Bacurau, o seu filme de 2019, e muito dos Retratos Fantasmas, o seu documentário sobre as antigas salas de cinema do Recife. É como se o realizador juntasse aqui as suas memórias de infância e as duas grandes paixões: o cinema e a sua cidade. Parte da acção passa-se na sala de projecção do Cinema São Luiz, onde é exibido o primeiro King Kong e a plateia grita de medo a ver The Shining, de Kubrick. E parte da acção passa-se nas coloridas ruas do Recife, que com seus comércios diversos e personagens populares é palco de encontros, desfiles de carnaval e até perseguições (uma das melhores sequências do filme, diga-se). 


O Vasco Câmara chama-lhe um filme "sinuoso" e "tortuoso". O Eurico de Barros diz que "cultiva o suspense e o mistério pedindo um esforço de participação ao espectador na decifração do que está a ser contado, em vez de lhe servir a papinha toda feita". É uma análise certeira: O Agente Secreto é um filme exigente na duração (2 horas e 38 minutos) e na forma, com uma estrutura pouco linear e uma miríade de personagens e histórias secundárias, que nem sempre se percebe muito bem porque é que ali estão. Pessoalmente, dispensava o salto temporal para o presente (tal como o dispensava em Ainda Estou Aqui) e irritou-me a elipse precisamente num momento-chave da narrativa. Como assim, Kleber?, vamos ficar sem saber o que se passou?


Resumindo: gostei bastante. Mas duvido que haja Óscar para o Brasil este ano.


 


*


Ando a especializar-me em contornar os temas do largo. Não é propositado. Tem sido só mesmo falta de imaginação para mais. Esta semana era "Ainda estou aqui". E eu quis mostrar que, apesar da falta de criatividade, ainda estou aqui.


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Wednesday, November 12, 2025

Bonnie "Prince" Billy: música para nos reconciliarmos com o mundo

Queria escrever sobre fúrias, porque tinha falhado a última sexta-feira no largo e achei que ainda vinha a tempo de destilar aqui um pouco das muitas fúrias que me têm acometido por estes dias. São tantas que a dificuldade seria escolher a qual me deveria dedicar. Mas, depois, na segunda-feira fui ver o concerto de Bonnie "Prince" Billy, no Teatro São Luiz. Preciso sempre de uma grande dose de boa vontade para sair de casa depois de um dia de trabalho, mas como o concerto foi logo às 20:00 (um grande bem-haja para quem teve esta ideia) lá me animei. E ainda bem que não sucumbi à preguiça, pois foi uma belo serão.


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Sempre com um boné na cabeça, como que a esconder a careca, um boné que, diga-se, parece destoar do resto da indumentária indie-folk mas entretanto já se tornou uma imagem de marca sua, Bonnie falou pouco com a plateia (mas o suficiente para criticar o estado da política americana), entregando-se por completo à guitarra e às canções que trazia para cantar. Os músicos eram todos excelentes. Fui pesquisar para poder dizer os seus nomes: Eamn O’Leary (bouzouki), Jacob Duncan (flauta e saxofone) e Thomas Deakin (guitarra barítono, clarinete, corneta) e, juntando-se um pouco mais tarde, Nuala Kennedy (flauta e voz). Não conhecia todas as músicas mas isso não fez diferença nenhuma. Durante mais de uma hora e meia, esqueci todas as fúrias e estive completamente imersa naquela músicas que pareciam vindas de um outro tempo para nos fazer olhar com olhos-de-ver para o mundo que nos rodeia e para as coisas que realmente importam. 


Numa entrevista publicada no Expresso no fim-de-semana anterior, ele tinha dito isso mesmo: "Penso que a forma como nos tratamos uns aos outros, mesmo em microinterações, é impossível registar o impacto disso, mas penso que é o mais importante. A música tem o seu valor, como tudo aquilo que valorizamos, respeitamos e que fazemos com uma certa intenção. Mas as as coisas que nos mantêm vivos e coexistem connosco é que permitirão à minha filha encontrar bolsas de felicidade no futuro."


Deixo aqui três canções das que ele cantou e de que gosto particularmente:


Lay and Love (a abertura do concerto)


 


From what I've seen, you're magnificent
You fight evil with all you do
Your every act is spectacular
It makes me lay here and love you

From what I hear, you are generous
You make sunshine and glory too
When you walk in things go luminous
It makes me lay here and love you

From what I know, you're terrified
You have mistrust running through you
Your smile is hiding something hurtful
It makes me lay here and love you

It makes me lay here and love you
I'm filled with violet and red and blue
I have a feeling from what I do
That you might lay there and love me too


*


The Water's Fine



Fifty years ago, or fifty years from now

Gotta lighten your load, gotta put it down

Go to the water, and jump right in

Wash away your troubles, be yourself again

 

We go down to the swimming hole

Where we could both finally bear our souls

Swim all day in the warm sunlight

Lay on our backs and watch the stars at night

 

Life can be so unkind

You gotta leave it all behind

You got yours and I got mine

Come on in, the water’s fine

 

When happiness seems out of reach

There’s a lot of good times down on the beach

Take off your wig, take off your clothes, honey

Head down to the ocean, get the sand in your toes

 

Life can be so unkind

You gotta leave it all behind

You got your troubles, I got mine

Come on in, the water’s fine

 

Find yourself a mountain stream

The air is cool and the water’s clean

Ain’t no bars on the telephone

Sometimes it’s best just to really be alone

 

Later on, the sun goes down

The barred owl calls, and your friends come round

Build a fire, scream at a star

Realize how small you are

 

Life can be so unkind

You gotta leave it all behind

You got yours and I got mine

step on down, the water’s fine

*


Our home (a fechar o concerto)


 


Make our furthest horizon the end of the street
That's how we make it our home
Look in the eyes of the people we meet
That's how we make it our home
We thank the Lord before we break bread
That's how we make it our home
We never forget the names of our dead
That's how we make it our home

Batten the hatches when thе cold wind blows
Save some for tomorrow 'cause you nеver can know
And the hard times are coming to push you down low
You're only as good as the people you know

Harvest the honey and string up the beans
That's how we make it our home
Do it by hand and screw the machines
That's how we make it our home
Pull down the fences and pull up a chair
That's how we make it our home
Nobody's perfect and nobody cares
That's how we make it our home

Stare at the sunset and not at the wall
Winter and spring and summer and fall
Answer the door when your friends come to call
There's not that much to it, no real work at all

 

Leggo my ego and embrace my id
That's how we make it our home
Pocket wolves, pickups, and just the right kid
That's how we make it our home
Well we've got the power and it's all off the grid
That's how we make it our home
That's how we make it our home

*

 


Sobre as fúrias - ou sobre outra coisa qualquer - vale sempre a pena ler o que escrevem as minhas companheiras do largo:



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