Bode expiatório
Aconteceu no início do mês: no podcast Interesting Times, do The New York Times, Ross Douthat convidou Helen Andrews and Leah Libresco Sargeant, apresentadas como escritoras conservadoras e críticas do feminismo, para debater o papel da mulher nas sociedades liberais. Helen Andrews é a autora do ensaio The Great Feminization, no qual argumenta que o feminismo falhou porque tornou as instituições demasiado feminas, expulsando delas os homens e as virtudes masculinas. Por outro lado, Leah Libresco Sargeant escreveu um livro intitulado The Dignity of Dependence, onde sugere que o feminismo liberal falhou ao obrigar as mulheres a suprimirem a sua natureza e a adaptarem-se a locais de trabalho e sistemas sociais feitos para os homens.
Na abertura, Douthat lançava o tema: "Men and women are different. That is a core premise of conservatism in the age of Trump, that liberalism and feminism have come to grief by pretending that the sexes are the same. But what does that difference really mean? Should the right be trying to roll back the entire feminist era? Or is there a form of conservative feminism that corrects liberalism’s mistakes?" A conversa desenrolou-se nestes termos, discutindo em 2025 (!!!) a natureza das mulheres e de que forma a entrada da mulher no mercado de trabalho alterou os modos de trabalhar e afectou a sociedade, mas também criticando o feminismo, o movimento #metoo e a denominada cultura woke.
Quando foi publicado no site do NYT, o podcast apareceu com este lindo título: "Did Women Ruin the Workplace?". Choveram críticas de todos os cantos do mundo e de (quase) todos os quadrantes políticos. De tal forma que o jornal se viu obrigado a mudar o título para "Did Liberal Feminism Ruin the Workplace?" - mas o mal já estava feito, as redes sociais são implacáveis a fixar tudo aquilo que preferíamos esquecer.
Na verdade, este debate veio só tornar ainda mais visível uma ideia que parece ter estado adormecida durante algumas décadas mas tem vindo novamente a ganhar força em canais de youtube e tiktok conservadores e machistas, espalhando-se como um vírus entre as cabeças tanto de jovens rapazes como de homens-feitos: o lugar natural das mulheres é em casa, a tomar conta da família e do lar, parindo e educando filhos, cozinhando e passando a ferro, e deixando o homem tomar contas das "coisas que realmente importam". Não vou aqui linkar nem sequer citar, mas a quantidade de pequenos e grandes influencers que tenho visto, lido e ouvido nos últimos tempos a dizer isto, por estas ou por outras palavras, de forma mais aberta ou com insinuações pouco subtis, tem-me deixado absolutamente abismada e furibunda. Como é possível que 200 anos depois de as feministas terem saído à rua para lutar pelos direitos das mulheres estejamos novamente a ter este tipo de conversas?
Portanto, ainda a batalha feminista estava longe de ser vencida, ainda estávamos aqui a tentar desenvencilhar-nos do maldito patriarcado, a apontar as desigualdades salariais e a exigir maior equidade na divisão das tarefas domésticas, a desesperar com os números relativos à violêncida doméstica e a lutar pela criminalização do assédio sexual, quando fomos abalroadas pelas ideias conservadoras (eu diria reaccionárias) que tomaram conta da internet, da sociedade e do discurso político, bramindo contra todas as conquistas tão arduamente conseguidas até aqui.
De que têm medo estes homens?
De perder os seus privilégios.
É só isso.
Ainda assim, que estes tristes machos encontrem nas mulheres o bode expiatório perfeito para justificarem os seus fracassos existenciais até me parece compreensível. Mas que mulheres embarquem neste discurso (assim como imigrantes votaram em Trump sem perceber que eram o alvo das duas políticas; ou as classas trabalhadoras votam repetidamente em partidos que não defendem os seus interesses) mostra bem o tanto que ainda está por fazer. E é um bom lembrete para todos nós de que não há direitos adquidiridos, a luta é constante.
Segundo a Wikipédia: We Can Do It! (em português: Somos capazes!) é o título de um cartaz de propaganda criado nos Estados Unidos, em 1943, por J. Howard Miller para a empresa Westinghouse, com o objectivo de levantar o moral dos seus trabalhadores durante o esforço de guerra. O cartaz é baseado na fotografia em preto e branco de uma operária que então trabalhava na Base Aeronaval de Alameda, na Califórnia.
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A correr atrás do prejuízo para cumprir o tema do largo da semana passada, que era bode expiatório. E lembram-se do dia em que não consegui escrever sobre fúrias? Pois aqui estão elas, ou pelo menos parte das fúrias que me têm assolado nos últimos tempos.
Ah, e vão ler as minhas vizinhas, que vale sempre a pena:



