Friday, October 31, 2025

Ainda ontem

Surpreendo-me sempre com o quanto eles cresceram. Quando eles eram pequenos e éramos só nós os três e andávamos sempre juntos, para onde quer que fosse, os três inseparáveis, havia uma amiga que dizia que parecíamos um galheteiro: eu no meio e um pimpolho de cada um dos lados, aos saltos, sempre aos saltos, os meus filhos sempre foram muito mexidos, e os amigos que nos viam ao longe distinguiam-nos logo, lá vêm eles, um galheteiro andante. Agora que eles cresceram mais do que eu, continuamos a ser um galheteiro mas ao contrário, eu de repente pequena no meio deles, mas sempre os três juntos, inseparáveis mesmo quando distantes. Surpreendo-me sempre com o quanto eles cresceram. Ainda ontem lhes trocava as fraldas e contávamos histórias e passávamos horas no jardim com bolas, skates e bicicletas, e agora um já trabalha e o outro vai começar a tirar a carta não tarda. É neles que vejo os anos a passarem. Envelhecer é uma merda (ah, sim, a sabedoria e a experiência, é tudo muito bonito, concordo, mas envelhecer é uma merda), mas vê-los crescer é uma alegria tremenda. 


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Monday, October 20, 2025

Pulso

A minha mãe usava uma pulseira elástica no pulso direito, o seu único pulso, cansado e desgastado por ser o único há tanto tempo, por ter de fazer sozinho o trabalho de dois. Era uma pulseira castanha que ela apertava com a ajuda dos dentes, como fazia tantas outras coisas, porque arranjara maneira de fazer quase tudo, teimosa como era, determinada a não dar parte de fraca, para que nunca a olhassem como uma aleijada, de tal maneira que cresci a achá-la completa, de tal maneira que quase nos esquecíamos, que quando alguém me perguntava, então a tua mãe?, eu era apanhada de surpresa, porque não a via como alguém com uma falta. Era isso que a deixava feliz. Essa aparente normalidade. Acho que só percebi verdadeiramente a dimensão disto muito mais tarde, já crescida, já com filhos meus, quando lhes pegava ao colo, quando os embalava, quando os alimentava, quando lhes dava banho. A falta de um pulso não é só a falta de um braço, que se compensa pedindo braços emprestados aos que te rodeiam. É uma falta maior. É a falta de tudo o que não podes fazer porque um bebé não é uma toalha que queres dobrar e basta pegar uma das pontas com os dentes para desenrascar. Há faltas que doem mais do que outras e esta deve lhe ter doído de maneiras que nunca saberei porque nunca falámos sobre isto, entretidas que andávamos a fingir que nada nos faltava.


Hoje é o dia da nossa mãe. Aqui está ela, linda, fotografada pelo nosso pai, o único com quem falava sobre tudo, o único que a conhecia totalmente, acho. 


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Achei que esta semana ia falhar no largo, mas hoje acordei com isto para dizer e acho que ainda vou a tempo. Há pulsos mais arrebitados por aqui:


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Friday, October 03, 2025

Quanto até ao apocalipse?

No outro dia, cheguei a casa, descalcei os sapatos e em vez de os deixar no seu lugar habitual, logo à entrada, guardei-os na despensa da cozinha. Não sei onde tinha a cabeça, provavelmente vinha com fome e a pensar no que ia comer. Foi o meu filho que reparou, muito espantado: o que estão aqui a fazer uns sapatos?


Também me acontece levantar-me do sofá e ir ao quarto e quando chego lá já não me lembro o que ia fazer. Isto é válido também para as "deslocações" virtuais. Abro um site qualquer para procurar não sei o quê, mas segundos depois já não me lembro ao que vinha. Ou se, por algum motivo, interrompo o que estou a fazer, tenho dificuldade em retomar o fio à meada. Bom, se vamos falar de esquecimentos, a lista é grande. Não dispenso a minha agenda em papel onde anoto tudo o que tenho para fazer e há muito que tenho o hábito de fazer listas para tudo e mais alguma coisa - para ir às compras, para ir de viagem, para organizar o trabalho, etc. - mas mesmo assim continuo constantemente a esquecer-me de coisas. 


Às vezes, estou a escrever e, de repente, falta-me uma palavra. Uma palavra simples, banal, daquelas que nem vale um tostão. Fico ali com os dedos pendurados uns segundos, a puxar pela cabeça, e nada. Vazio absoluto. Até que decido perguntar a alguém: como é que se diz...? Ou então saem-me palavras trocadas, isto é mais a falar, quero dizer porta e digo janela, ou quero dizer cavalo e digo sofá, sei lá, digo assim umas palavras disparatadas e os putos que trabalham comigo riem-se de mim e chamam-me velha. E eu rio-me também porque a outra opção seria chorar e eu tento levar isto com alguma leveza.


Diz que é normal. Que sim, é da idade e que daqui só vamos para pior. É a perimenopausa. Uma pessoa até podia tentar disfarçar, mas os sintomas estão cá. Não tenho grandes calores nem alterações de humor (acho, mas a minha opinião é parcial). Mas ando com os sonos trocados e tenho estas falhas, pequenas até ver, mas que me deixam furibunda. Não tenho saudades do sangue, vivo bem sem esse calvário mensal, e por agora também estou a aceitar as rugas e as peles caídas e esses outros sinais do envelhecimento do corpo, mas odeio sentir que estou a perder o controlo da minha cabeça. Tenho medo que não seja só velhice, que seja alguma doença. Lembro-me muito do filme da Julianne Moore, que vi quando isto ainda estava tudo muito longe, mas que me impressionou imenso. Tento não pensar muito nisso, mas, quando penso, imagino que é como se estivéssemos a descer umas escadas, a caminho da cave, e fica cada vez mais escuro, e não há maneira de voltar para trás.


Quem somos nós sem o nosso pensamento? 


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Não sei se há mais gente a caminho do apolicapse no largo, mas vão lá lê-las sobre o que fôr que será sempre bom:


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