Sunday, May 25, 2025

Teimosia

Aconteceu já quase no fim do concerto. A Aldina estava a dizer o quanto se sentia feliz por estar ali e, de repente, emociona-se a falar da democracia e não tarda muito está a falar da tristeza provocada pelo resultado das últimas eleições. Não foi algo planeado, mas as palavras saíram-lhe, atabalhoadas, pedindo desculpa. A grande Aldina Duarte. É também por isso que gosto dela. Porque é sincera, porque se mostra, tal como é, porque se permite deixar levar pelas emoções. E no fim disse-se aliviada por ter desabafado. "Estou há uma semana sem conseguir falar disto, nem com os meus amigos", explicou.


Percebi-a tão bem. Eu também estou há uma semana sem conseguir falar disto. Tenho estado em casa a descansar de tudo o que trabalhei durante a campanha eleitoral. O meu corpo estava exausto e têm sido dias para recuperar, para dormir e voltar ao yoga e ao pilates. Mas têm sido também dias de reclusão, de falar com poucas pessoas. Para limpar a cabeça, para tentar fazer as pazes com o mundo e para pensar o que podemos fazer daqui para a frente. Ainda há um ano estava a falar disto. A luta continua, sempre. Pela democracia. Pela comunidade. Pelo bem. É muito difícil compreender, como disse a Aldina ontem, que tanta gente vote em quem apela ao lado pior da humanidade, quem defende o ódio, a discriminação, o individualismo. Mas é a realidade que temos. E a melhor maneira de combater o ódio é mostrar como é bom o amor. Como somos mais felizes juntos, com os outros, com os que são diferentes, de mãos dadas, uns puxando os outros. Não é uma tarefa fácil, mas é a tarefa que temos pela frente.


O concerto da Aldina Duarte foi incrível, como sempre. 


Mas a música que vos quero deixar aqui é outra, roubada descaradamente à Helena, porque me parece que diz exactamente aquilo que quero dizer, com o balanço do samba e as vozes de Jonathan Silva e Ceumar Coelho. Uma música para nos inspirar a continuar, teimosamente, do lado da democracia e dos valores humanos. Uma semana depois, mas nunca tarde demais.


 


"Se o mundo ficar pesado
Eu vou pedir emprestado
A palavra POESIA


Se o mundo emburrecer
Eu vou rezar pra chover
Palavra SABEDORIA


Se o mundo andar pra trás
Vou escrever num cartaz
A palavra REBELDIA


Se a gente desanimar
Eu vou colher no pomar
A palavra TEIMOSIA


Se acontecer afinal
De entrar em nosso quintal
A palavra tirania


Pegue o tambor e o ganza
Vamos pra rua gritar
A palavra UTOPIA"

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Friday, May 23, 2025

Pantufas

O que eu gostava mesmo era de me poder reformar. Já trabalhei muito, já fiz muita coisa, já estou cansada, já me custa isto de trabalhar alguns dias até à meia-noite, de não ter fins-de-semana, de ter que estar oito horas no escritório, já não tenho paciência para aturar chefes incompetentes, estou farta de fazer coisas que não gosto de fazer. Quando penso na quantidade de anos que ainda faltam para me reformar fico deprimida. E não julguem que quero reformar-me para ficar sem fazer nenhum o tempo todo. É exactamente o contrário. Há tanta coisa que quero fazer ainda, tanto que ainda queria aproveitar. Tantos filmes para ver, tantos livros para ler, tantas viagens para fazer, tantos textos para escrever, tantos amigos com quem conversar, tantas receitas para experimentar, tantos concertos, espectáculos, pessoas, exposições, esplanadas, abraços, passeios, paisagens, comidas, tricots, arrumações, fotografias, sofás, janelas, experiências, tanto com que me ocupar. Tanta vida para viver. Como é que vou conseguir fazer isto tudo se me canso todos os dias a trabalhar? Por este andar, aos 68 anos ou lá o que será a idade da reforma vou estar um caco. Vai ser só calçar as pantufas e deixar-me existir.


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Estive duas semanas afastada do largo porque andei a trabalhar muito e sem tempo para mais nada (lá está), mas estou de volta a estas sextas-feiras de escrita que tanto prazer me dão. Parece que há mais gente de pantufas por aqui:


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Monday, May 19, 2025

Por mares nunca dantes navegados: os filhos crescem

Os filhos crescem e seguem caminhos que nem sempre são aqueles que imaginámos ou desejámos para eles. Seguem os seus caminhos. Sabemos que será assim. Mas aceitá-lo pode não ser assim tão fácil. O crescimento dos filhos é (pode ser) uma viagem por mares revoltos - e eu não tenho espírito de navegante, enjoo facilmente. Ia dizer que o último ano foi muito desafiante, mas, sinceramente, o anterior também já tinha sido, e o outro antes desse, e o outro e o outro, já nem me lembro ao certo quando é que isto começou mas estou em crer que há de ter sido quando o António estava no 8º ano e de repente deixou de ser o meu menino adorável e se transformou num rapaz que eu não conhecia, como assim?, o meu filho não, deve estar enganada, esse não pode ser, e afinal era. Foram (têm sido) anos de zigues e zagues, de dúvidas, de discussões, de encontrões. E pelo meio começou a adolescência do Pedro e mesmo calejada, mesmo já de sobreaviso, a tarefa não se apresenta mais fácil. Lá vem mais uma onda, protejam-se, marinheiros. Os filhos crescem e não trazem manual de instruções. Era assim quando eles eram bebés, continua a ser assim pela vida fora. Apesar de tudo, era mais fácil trocar fraldas do que lidar com a adolescência. Somos as mães que conseguimos ser dentro das nossas circunstâncias. Vamos aprendendo com os erros - nossos e deles. Sentir-nos-emos eternamente culpadas por não termos conseguido ser melhores (e isso nem a terapia nos consegue tirar totalmente). Mas vamos aprendendo. A conversar com eles. A conhecê-los. A reconquistá-los. A aceitá-los, sobretudo isto. Os filhos crescem e seguem caminhos que nem sempre são aqueles que imaginámos ou desejámos para eles. Seguem os seus caminhos. E isso é ao mesmo tempo entusiasmante e assustador. Emocionante e revoltante. 


Há duas semanas, o António saiu de casa. Andávamos há meses a falar disto e no momento em que acontece não estamos preparados. São tantos sentimentos misturados que fica difícil controlar as lágrimas, não sei se choro de orgulho ou de saudades, de ansiedade ou de alegria, de preocupação ou de tristeza, de mera comoção ao vê-lo pegar nas malas, tão determinado. (e quem nos prepara para a separação dos irmãos, vais te mesmo embora?, quem nos prepara para aqueles olhos brilhantes, puto, podes ir visitar-me quando quiseres, quem nos prepara para aquele abraço a três e depois o vazio?) E mesmo que seja temporário, mesmo que esteja muito perto, que falemos todos os dias, que troquemos mil mensagens, que agora ele tenha vindo passar dois dias connosco e esteja ali no quarto, como sempre esteve, mesmo que esta ainda seja a sua casa e no fundo isto seja mais ou menos o mesmo do que antes só que não tenho que lhe fazer o jantar, de repente, parece que demos muitos passos de uma só vez. 


Tem sido uma viagem e tanto. Ainda estamos longe da calmaria, mas já conseguimos manter-nos à tona (na maior parte do tempo).


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esta foto parece que foi ontem, mas foi em 2009

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Thursday, May 01, 2025

Trabalhador (as)

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São mulheres com um sotaque (lindo) do Alentejo. Vejo ali traços das minhas avós e bocados das suas vidas, e só isso já seria suficiente para me comover. São mulheres que nos contam como era a sua vida antes do 25 e Abril de 1974. Umas nunca foram à escola, outras estudaram até à terceira ou quarta classe, começaram a trabalhar com 11, 12, 15 anos, no campo - na apanha da azeitona, na monda, na ceifa - ou então a servir em casa de alguém. Eram crianças ainda e já tomavam conta dos irmãos mais pequenos ou dos filhos das senhoras, faziam a lida da casa, cozinhavam para a família. Casaram virgens e sem saber nada sobre sexo. Serviram os maridos como serviram os patrões: com respeito e obediência. Foram criadas em suas próprias casas, sem pagamento nem reconhecimento. Poucas vezes se questionaram se eram felizes, se poderia ser diferente, se mereciam melhor. Resignaram-se. 


Os vídeos do projecto Antigamente é que era bom estão na página de instagram aifi.lhas e são ao mesmo tempo tristes e belos, mas são, sobretudo, um alerta para que não esqueçamos como era e para não acreditarmos em teorias revisionistas. Muita coisa mudou nestes 51 anos e muita coisa mudou para melhor. Sobretudo para as mulheres.



[Existe um outro projecto muito bonito, o podcast Memória Futura, da Laura Falésia, em que ela entrevista mulheres mais velhas, cada uma com uma história incrível. Fica a dica.]


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Hoje é dia do trabalhador. E da trabalhadora. A foto lá em cima foi tirada DAQUI. Aproveito para aconselhar que procurem as fotografias que a Maria Lamas tirou às mulheres do nosso país e para lembrar o que escrevi num dia particularmente irritada.  


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Queria aproveitar também para falar do meu trabalho, mas, precisamente, estes têm sido dias muito exigentes, e não estou a conseguir escrever o que gostaria de escrever. Mas fica prometido. Ser feliz no trabalho que escolhemos (ainda que não sejamos felizes todos os dias nem todas as semanas, ainda que por vezes duvidemos de tudo, ainda que muitos dias sintamos que não vale a pena e só nos apeteça desistir) é um privilégio enorme. 


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A propósito, já viram o On Falling?


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No nosso largo só se trabalha por gosto:


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