Teimosia
Aconteceu já quase no fim do concerto. A Aldina estava a dizer o quanto se sentia feliz por estar ali e, de repente, emociona-se a falar da democracia e não tarda muito está a falar da tristeza provocada pelo resultado das últimas eleições. Não foi algo planeado, mas as palavras saíram-lhe, atabalhoadas, pedindo desculpa. A grande Aldina Duarte. É também por isso que gosto dela. Porque é sincera, porque se mostra, tal como é, porque se permite deixar levar pelas emoções. E no fim disse-se aliviada por ter desabafado. "Estou há uma semana sem conseguir falar disto, nem com os meus amigos", explicou.
Percebi-a tão bem. Eu também estou há uma semana sem conseguir falar disto. Tenho estado em casa a descansar de tudo o que trabalhei durante a campanha eleitoral. O meu corpo estava exausto e têm sido dias para recuperar, para dormir e voltar ao yoga e ao pilates. Mas têm sido também dias de reclusão, de falar com poucas pessoas. Para limpar a cabeça, para tentar fazer as pazes com o mundo e para pensar o que podemos fazer daqui para a frente. Ainda há um ano estava a falar disto. A luta continua, sempre. Pela democracia. Pela comunidade. Pelo bem. É muito difícil compreender, como disse a Aldina ontem, que tanta gente vote em quem apela ao lado pior da humanidade, quem defende o ódio, a discriminação, o individualismo. Mas é a realidade que temos. E a melhor maneira de combater o ódio é mostrar como é bom o amor. Como somos mais felizes juntos, com os outros, com os que são diferentes, de mãos dadas, uns puxando os outros. Não é uma tarefa fácil, mas é a tarefa que temos pela frente.
O concerto da Aldina Duarte foi incrível, como sempre.
Mas a música que vos quero deixar aqui é outra, roubada descaradamente à Helena, porque me parece que diz exactamente aquilo que quero dizer, com o balanço do samba e as vozes de Jonathan Silva e Ceumar Coelho. Uma música para nos inspirar a continuar, teimosamente, do lado da democracia e dos valores humanos. Uma semana depois, mas nunca tarde demais.
"Se o mundo ficar pesado
Eu vou pedir emprestado
A palavra POESIA
Se o mundo emburrecer
Eu vou rezar pra chover
Palavra SABEDORIA
Se o mundo andar pra trás
Vou escrever num cartaz
A palavra REBELDIA
Se a gente desanimar
Eu vou colher no pomar
A palavra TEIMOSIA
Se acontecer afinal
De entrar em nosso quintal
A palavra tirania
Pegue o tambor e o ganza
Vamos pra rua gritar
A palavra UTOPIA"
