Sunday, January 28, 2024

E se te perder que fique ao menos a alegria de um dia te ter encontrado

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(fotografado no bar-livraria Menina e Moça, em Lisboa)

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Wednesday, January 17, 2024

Para que serve o jornalismo?

Chorei copiosamente a ver o documentário 20 Dias em Mariupol, do jornalista Mstyslav Chernov, que retrata a saga da equipa de jornalistas da AP, os únicos jornalistas que ficaram na cidade de Mariupol nos primeiros dias da invasão russa e que se esforçaram para contar ao mundo o que ali se passava. Chorei pelas crianças que morreram, pelos pais em sofrimento, por todas as pessoas com medo. Pelos jornalistas que correram risco de vida. Pelos militares que salvaram os jornalistas porque perceberam a importância do que eles estavam a fazer. "Filmem isto, mostrem ao mundo o que nós estamos a passar", diziam-lhes os médicos. E se não fossem eles, se não fosse a sua coragem, como saberíamos?


 


Não chorei mas foi por pouco a ler Um Dia na Vida de Abed Salam, o angustiante livro de Nathan Thrall , jornalista norte-americano a viver há 12 anos em Jerusalém. O livro conta a história verdadeira de um acidente com um autocarro que, num dia de muita chuva, transportava crianças de uma escola palestiniana para um parque de diversões. Thrall ouviu as muitas versões daquela história. E foi ainda mais longe e quis saber as histórias das pessoas que, de uma forma ou de outra, estiveram ligadas a esse acidente. O pai que perdeu um filho, o condutor do autocarro, a professora que ia com as crianças, a médica que salvou vidas, o bombeiro que apagou o fogo, a enfermeira que não chegou a horas, o urbanista que planeou aquela estrada, o militar que a vigiava. Quase sem darmos por isso a história daquele acidente transforma-se na história da Palestina. 


Desde 7 de outubro, são pelo menos 79 os jornalistas e profissionais de órgãos de comunicação social, a maioria dos quais palestinianos, mortos na guerra entre Israel e o Hamas. Quem irá contar as histórias daquelas pessoas quando não houver mais jornalistas na Faixa de Gaza?


Vejo nas redes sociais muitos comentários de pessoas que desprezam os jornalistas e que dizem que o seu trabalho não serve para nada. Eu também sou muito crítica em relação ao jornalismo que fazemos. Sim, é verdade, há muito mau jornalismo por aí. Por isso é cada vez mais importante preservarmos o bom jornalismo. Fazermos escolhas acertadas. Reflectirmos todos sobre o que andamos aqui a fazer.  Fazermos o nosso trabalho o melhor possível. Porque, não tenhamos ilusões, o mundo será um lugar muito pior e muito mais escuro se (quando) não houver jornalistas. Quando estivermos exclusivamente à mercê de informações enviesadas, não verificadas, falsas, divulgadas sabe-se lá por quem e a servir sabe-se lá que interesses.


Esta semana realiza-se o 5º Congresso dos Jornalistas. Tenho vários mixed feelings sobre o que se passa nos media, não tenho qualquer espírito de classe e há muito tempo que não visto camisolas. Mas paguei a minha inscrição, talvez me apeteça passar por lá. E, por fim, peguei nas minhas dúvidas, fui perguntar a outros jornalistas o que é que eles achavam disto tudo e escrevi um artigo. É a minha singela participação para o debate.


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O jornalista da Al Jazeera Wael Dahdouh chora a morte do seu filho Hamza, que também trabalhava para a Al Jazeera e que foi morto num ataque aéreo israelita em Rafah, Faixa de Gaza, domingo, 7 de janeiro de 2024. Dahdouh já tinha perdido a sua esposa, outros dois filhos e um neto nesta guerra e ele próprio quase foi morto. (Foto AP/Hatem Ali)

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Thursday, January 11, 2024

Mr. Ripley, I presume?

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Chama-se Jacob Elordi, tem 26 anos e um sorriso malandro e, apesar de estar a ler o Harry Potter (ninguém é perfeito, né?), é das poucas coisas que se aproveitam em Saltburn, o filme de Emerald Fennel, que alguns podem conhecer também como a actriz que fez de Camilla Parker Bowles na série The Crown. Nem quero contar muito porque não quero estragar a experiência a quem for ver, até porque parece que há muita gente por aí que adorou. Eu é que não tenho paciência para filmes que se acham muito polémicos e transgressores só porque mostram umas pilas e umas cenas de sexo menos comuns. Isso e o facto de ser uma imitação barata de Patricia Highsmith.


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Tuesday, January 09, 2024

Jogo de espelhos

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A primeira coisa que me intrigou foi o título: May December. Vi o filme todo e continuei sem perceber. Tive de pesquisar para saber que "may december" é uma expressão que se refere a uma relação amorosa em que a diferença de idades é muito grande, "may" refere-se ao mais novo, "december" ao mais velho.


May December é um filme de Todd Haynes e acho que isso dá-nos logo algumas pistas. Sabemos à partida que será um filme que nos vai colocar em lugares desconfortáveis. Em zonas cinzentas. Onde as coisas não são exactamente como parecem. Por exemplo, aqui começamos por entrar numa festa de aniversário no jardim, com bolos e churrasco, temos uma família simpática, um casal amoroso, uma comunidade agradável, muitos sorrisos. Mas talvez não haja assim tantos motivos para sorrir. Gracie (Julianne Moore) e Joe (Charles Melton) conheceram-se quando ela tinha 36 anos e ele apenas 13. A paixão acabou com o primeiro casamento dela, afastou-a dos filhos e levou-a à prisão, onde acabaria por dar à luz. Joe não teve oportunidade de ter uma juventude plena, quando os seus amigos estavam a divertir-se em festas ele já estava a trocar fraldas. Mas a relação sobreviveu. Tiveram uma filha e depois um casal de gémeos. 24 anos depois, a sua história vai chegar ao cinema. Elizabeth (Natalie Portman) é a actriz que vai interpretar Gracie. Está a preparar-se para o papel e visita o casal. Eles recebem-na e dispõem-se a colaborar. Isso leva-os a desenterrar memórias e sentimentos antigos, a colocar questões que porventura nunca tinham sido feitas em voz alta. Todas as pessoas "comuns" têm segredos e mentiras. Elizabeth entrevista várias pessoas na cidade, faz perguntas sobre o que aconteceu. Cada pessoa tem a sua visão, criou a sua narrativa sobre o acontecimento, Gracie e Joe também. As aparências iludem (e iludem e iludem, até ser quase impossível perceber onde está a realidade). Elizabeth passa muito tempo com Gracie, observando-lhe os gestos, a maneira de falar, o modo como se veste. A cada cena Elizabeth está mais parecida com Gracie, como se pudesse apreendê-la na totalidade, reviver a sua história, e ela bem tenta. Mas a vida real é mais complicada do que isso.


Mais complicada ainda se pensarmos que o próprio filme de Haynes é baseado numa história real. Esta é uma informação que não é essencial mas que acrescenta mais uma camada a um filme que já tem várias camadas.


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Monday, January 08, 2024

De que cor é a tua pele? É da minha cor

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Assassinos da Lua das Flores é um belo filme. A mim interessou-me particularmente a história dos índios Osage, de que nunca tinha ouvido falar. A história, baseada em factos reais, é incrível e diz muito sobre a construção da América. Os Osage foram expulsos das suas terras e instalados numa reserva no Oklahoma, um território rochoso e inóspito que, mais tarde, se iria revelar rico em petróleo. Os Osage tornaram-se por isso, subitamente, bastante ricos, puderam construir casas, comprar carros, americanizar-se. Mas também se tornaram alvo de inveja. Uma vez que os direitos às terras não podiam ser vendidos nem comprados, apenas herdados, as mulheres Osage tornaram-se particularmente cobiçadas pelos homens americanos. Muitos casaram com mulheres indígenas que, depois, morriam de forma misteriosa. O filme conta a história verdadeira de uma série de mortes ocorridas na comunidade no início dos anos 20, evento que ficou conhecido na época como "reino do terror". Este foi o primeiro caso de homicídio do então recentemente criado Federal Bureau of Investigation (FBI).


Assassinos da Lua das Flores também é uma história de amor, retorcida mas uma história de amor que poderia ter acabado bem se o Ernest Burkhart tivesse um bocadinho mais de carácter. Ele é apaixonado por Molly mas também é um fraco. Não gostei nada do Leonardo Di Caprio, o que para mim não é surpresa. Demasiados trejeitos, demasiado esforço. Já a actriz Lily Gladstone está fantástica (acabou de ganhar um Globo de Ouro). Molly é uma mulher determinada e tranquila. Aquele olhar dela diz tanto. A serenidade da sua voz. 


E, por fim, é uma história do preconceito, que ainda hoje existe. Os americanos tiveram imensa dificuldade em aceitar que os indígenas eram mais ricos do que eles. Podiam até ser seus empregados mas não lhes reconheciam qualquer valor. Os homens até podiam casar com as mulheres Osage mas poucos gostavam realmente delas. De Niro (a fazer de De Niro) ilustra bem esse olhar, ora paternalista ora de desprezo, sobre os indígenas.


São três horas e 40 minutos de filme que talvez pudessem ser só duas horas e meia, é verdade, mas ainda assim gostei muito. Martin Scorsese, que nos brinda com a sua presença na cena final, sabe bem o que está a fazer. Não vi o filme no cinema mas tenho pena porque acho mesmo que merece um grande ecrã. Ou então sou eu que não resisto a um bom filme de época. 


Sobre o título: Na tradição indígena os meses são nomeados de acordo com as luas cheias. Em maio, as pequenas flores azuis que floresceram em abril tomando conta da paisagem do Oklahoma acabam por murchar e dar lugar a plantas maiores. Os Osage chamam a este período "the time of the flower-killing moon". 


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Tuesday, January 02, 2024

Vamos lá, então, 2024

 


"(...) So you're scared and you're thinkingThat maybe we ain't that young anymoreShow a little faith, there's magic in the nightYou ain't a beauty, but hey, you're alright (...) 


Well now, I'm no hero, that's understoodAll the redemption I can offer, girl, is beneath this dirty hoodWith a chance to make it good somehowHey, what else can we do now? 


Except roll down the windowAnd let the wind blow back your hairWell, the night's busting openThese two lanes will take us anywhereWe got one last chance to make it realTo trade in these wings on some wheelsClimb in back, heaven's waiting down on the tracks


Oh, come take my handWe're riding out tonight to case the promised land (...)"


Bruce Springsteen, Thunder Road

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