Tuesday, April 25, 2023

25 de Abril: da importância de lembrar o passado e cuidar do futuro

No 25 de Abril de 1974 eu já andava por aí, na barriga da minha mãe. Nasci em liberdade e tenho muita noção do quão privilegiada sou por isso. Cresci a ouvir as histórias dos meus pais e dos meus avós, a saber da fome e do medo, da guerra e da opressão, da pobreza e da falta de perspectivas de futuro. Cresci sabendo que comigo seria diferente. Que na minha escola todas as crianças tinham sapatos nos pés. Que votar no dia das eleições é um direito, um dever e uma enorme alegria. Que podia discordar. Sou filha da escola pública e do serviço nacional de saúde, da Comunidade Económica Europeia e dos sonhos que se poderiam realizar: "Não somos ricos nem temos cunhas, mas se estudares e trabalhares podes ser o que tu quiseres", disse-me o meu pai. Eu estudei e trabalhei e aqui estou. Sou o que quero (e se não sou mais é porque não soube sê-lo). 


Há dias em que isto faz tudo sentido.


Nos últimos dias andei a recolher testemunhos de pessoas muito fixes sobre o significado pessoal desta data.


Ontem estive no Palácio de Queluz a ver o Chico Buarque a receber o Prémio Camões e tive que me controlar para não deixar cair uma lagriminha. 


Hoje, irei descer a avenida, encontrar amigos e dar abraços. 


Gosto muito do dia 25 de Abril. Estou geralmente feliz. Emociono-me de todas as vezes que ouço o "Grândola". Sorrio sempre ao ver as imagens dos militares nas ruas, da multidão em êxtase, dos cravos. Sinto uma enorme gratidão e ao mesmo tempo o receio de que tudo isto seja demasiado frágil, às vezes tenho a sensação de que não estamos a cuidar tão bem quanto deveríamos da nossa democracia. Pergunto-me se faço o suficiente. 


Esse questionamento também é uma das heranças do 25 de Abril.


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Populares saudam os militares no dia 25 de Abril 

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Thursday, April 13, 2023

Wiser

Amassei pão, fiz biscoitos, temperei a carne para o jantar, lavei a louça e ainda me sentei a beber café e a comer os biscoitos ainda mornos, tudo isto enquanto ouvia os dois primeiros episódios do podcast Wiser than me, no qual a atriz Julia Louis-Dreyfus entrevista mulheres alegadamente mais inteligentes do que ela. A primeira foi a atriz Jane Fonda e a segunda a escritora Isabel Allende. A Julia é uma péssima entrevistadora, há que dizê-lo. Mas as entrevistadas são muito boas. A Allende, sobretudo, vale muito a pena. Sabem quando eu dizia que a partir de uma certa idade aprendemos a ser aquilo que realmente somos e dizemos as coisas que realmente pensamos? É isso, mas com a experiência dos 80 anos. Imaginem a liberdade. 


(sou tão feliz quando estou de férias, mesmo quando nem tudo corre bem. sou tão feliz que até tenho tempo e paciência para ouvir podcasts, que é uma coisa que raramente acontece)

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Viver fora da bolha

“Eu acho que as coisas estão a mudar, mas depois dou três passos fora da minha bolha e vejo que ainda está tudo longe do ideal, não sei se a sociedade efectivamente está a mudar.”


As palavras do Mário são certeiras. Porque escolhemos bem as nossas relações, pertencemos a um grupo restrito de pessoas que acredita que a mudança está a acontecer. Que há cada vez menos machismo, menos misoginia, menos homofobia, menos racismo, menos xenofobia, menos discriminação e menos preconceitos. Mas iludimo-nos. Basta uma viagem a essa lixeira que são as caixas de comentários dos jornais online para perceber que estamos muito longe dessa mudança. Aconteceu-me recentemente, primeiro com a entrevista ao Mário, que foi insultado de tudo e mais alguma coisa só por pintar as unhas e fazer tricot, e depois com um outro artigo sobre um novo projecto feminista, cujas fundadoras foram apelidadas de radicais, acusadas de não terem homem e mandadas para casa lavar a loiça, entre outros mimos. Como é possível? 


Tenho muita dificuldade em lidar com esta realidade. Quero ficar na minha bolha. No meu cantinho de tolerância e empatia. Mas, por outro lado, não consigo ficar completamente fora do mundo, nem que seja porque (oh, que pretensão a minha) sinto que temos todos de fazer alguma coisa para impulsionar a mudança, ainda que pequena. É uma questão de cidadania. Não podemos passearmo-nos por aqui como se tudo isto, só porque não nos afecta directamente, não tivesse nada a ver connosco. 


Na falta de melhor, continuo a falar e a escrever. São só palavras. Uma arma fraquita, mas é o que temos.

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Thursday, April 06, 2023

Os 50 são os novos 50 - e esta é a banda sonora ideal para festejar

 


Isto já começou há uns tempos, uma pessoa aqui e outra ali, mas acho que só agora estou a tomar verdadeira consciência do facto: estamos a chegar aos 50. Ainda no outro dia estávamos a fazer as festas dos 40, todas giras e frescas, a beber gin tónico e a dançar pela noite fora, a sentirmo-nos as maiores a meio da vida e a dizer que os 40 são os novos 30 e que bom que era, mesmo com uma ruga ou outra, termos esta dose de experiência e maturidade, lembram-se? Não sei muito bem o que aconteceu pelo meio - ou melhor, até sei, passaram dez anos e aconteceu uma pandemia e os filhos deixaram de ser crianças e começámos a perder as nossas pessoas e as hormonas desataram a fazer das suas e algumas de nós ainda sofreram mais uns quantos atropelos - mas sei que de repente estamos nos 50 e, não sei quanto a vocês, mas a meu ver isto parece-se exactamente como os 50 que são. Sem filtros nem melhoramentos. 


Isso não é propriamente mau, atenção. É o que é. Não podes fugir, não te podes esconder, portanto, mais vale aproveitar muito bem enquanto aqui estamos, porque, como diz o Ivo Canelas, "isto passa a correr".


Duas coisas boas que a idade nos dá: uma consciência muito clara daquilo que nos interessa e a coragem de assumir isso mesmo, dizendo que "me estou a cagar" para o que não interessa (sejam os cabelos brancos, as opiniões dos outros, a marca dos sapatos ou as pessoas tóxicas à nossa volta).


É procurar as coisas boas, que as há sempre, até mesmo quando parece que não (isto sou eu a dizer a mim mesma, que me esqueço tantas vezes deste conselho básico) e dar muitos abraços a todas as pessoas que importam, porque as pessoas de quem gostamos e que gostam de nós são a única coisa que vale realmente a pena nesta viagem.  



Este ano, três das minhas melhores amigas fazem 50 anos. 



Foi a pensar nelas - e em todas nós, que já estamos ou que vamos a caminho dos 50 - que fiz esta playlist, com a mesma dedicação com que, na adolescência, enchíamos cassetes com as músicas que queríamos ouvir nas férias. São 50 canções cantadas por mulheres e, muitas delas, são também canções sobre mulheres. Havia outras mas a vida é feita de escolhas, não é? Estas são, sobretudo, canções de que gosto muito e, por isso, quero partilhá-las, assim em forma de prenda.




 

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Os amigos são os lugares aonde voltamos sempre

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Esta foto foi tirada há quase dez anos. Os sorrisos escondem uma história. Neste dia, tinha assinado o meu divórcio. Estava de rastos. Enchi o porta-malas do carro, peguei nos miúdos, que nessa altura eram mesmo miúdos, e rumei ao sul para aquelas que seriam as minhas primeiras férias só com eles. Aterrei nessa tarde no colo da Sónia, que me acolheu, como sempre, com os braços abertos. E copos de vinho. E tranquilidade.


Temos outras histórias juntas, mais divertidas, mais animadas, com maior ou menor grau de loucura. Mas no fim das contas é isto. Às vezes só precisamos de alguém que nos ouça e nos limpe as lágrimas. E que nos diga que vamos conseguir. Nunca poderei agradecer completamente a todas as pessoas (e são algumas) que nos últimos anos têm feito isto por mim. 


Parabéns, minha querida, e obrigado por estares sempre aqui.

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Monday, April 03, 2023

No meu cabelo mando eu (e no resto também)

Estava à espera deles há algum tempo. São poucos mas estão aqui, bem na frente, impossível não vê-los quando me olho ao espelho todas as manhãs. Uns três ou quatro cabelos brancos que se destacam entre os mais escuros, a enquadrar-me o rosto, os primeiros de muitos, suponho. Só agora? Tens muita sorte, disseram-me. A sorte de nunca ter pintado cabelo. Houve uns momentos, quando era mais jovem, que tive vontade de ter o cabelo vermelho ou azul, mas nunca tive coragem. E para falar a verdade sempre gostei do meu cabelo preto. À medida que, à minha volta, amigas iam-se confrontado com os cabelos brancos, perguntava-me o que faria eu quando a minha altura chegasse. Iria pintar? Sempre achei que não. Irei pintar?, pergunto-me outra vez. Continuo a achar que não, mas quem sabe? A única coisa boa de envelhecer é estar cada vez mais nas tintas para o que os outros pensam e para o que é suposto uma "senhora da minha idade" fazer. Que se lixem as convenções sociais e as expectativas dos outros e os "alexandres pais" desta vida. Se me apetecer pintar o cabelo de cor-de-laranja, pinto. Se me apetecer ficar grisalha, fico. 


O corpo é meu.


Se me acharem feia, não olhem. A gerência agradece.


Se vos apetecer comentar, fiquem calados, ou falem do tempo.


Sobre cabelos brancos escrevi AQUI.


Sobre esta pressão colocada sobre as mulheres e os seus corpos tenho escrito bastante, é só seguirem a tag Mulheres.


Sobre o texto execrável do Alexandre Pais, acho que há muito tempo que não sentia um nojo tão grande ao ler as palavras de alguém que não fosse o André Ventura. São três parágrafos de machismo, bodyshaming e idadismo. Uma pérola de boçalidade que julgávamos já não ser possível em 2023. 


E ainda há quem me diga que as lutas feministas já passaram de moda. Quem me dera.


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