Thursday, March 23, 2023

"Great Yarmouth", não há nada de confortável aqui

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Great Yarmouth, o filme de Marco Martins, remexeu-me por dentro de uma maneira que há muito já não sentia no cinema. Saí entorpecida da sala escura. Amargurada. Nos últimos dias, de vez em quando, lembro-me da Tânia, da sua minissaia de ganga, das rugas na cara séria, da voz rouca, dos passos firmes com que caminha pela ruínas da cidade, da bolsa que traz à cintura e onde guarda os seus preciosos apontamentos, quem pagou, quem deve, as notas enroladas em canudinhos e a caixa de Vicky Vaporup [o creme de cheiro intenso a mentol que coloca no nariz para não sentir os odores da podridão da fábrica, o cheiro dos perus mortos, das tripas, do sangue coagulado que se entranha nas mãos e nas roupas e não há maneira de se conseguir tirar aquelas nódoas], das aulas de inglês debitadas pelos phones nos ouvidos, do modo como repete a palavra "comfortably". Não há nada de confortável em Great Yarmouth, uma cidade inglesa à beira-mar, que já foi "the finest place in the universe", assim lhe chamou Charles Dickens, e agora é um lugar decadente, onde só os velhotes que não têm dinheiro para vir para o Algarve aparecem para férias baratas onde podem sentir a maresia, jogar às cartas, perder-se em noites de karaoke e ter aulas de dança de salão em hotéis de terceira mas que, ainda assim, são melhores do que os hotéis (chamar-lhes hotéis é um claro eufemismo) que Tânia gere, com precisão de merceeira, e onde instala os emigrantes portugueses, chegados em camionetas, carregados de sacos plásticos, que fogem da crise para tentar ganhar algum dinheiro a desossar perus. São portugueses em Inglaterra, podiam ser nepaleses nas estufas de Odemira ou indianos a pedalerem para nos entregarem hambúrgeres no pão à porta de casa. "Eles chamam aos portugueses pork cheese, mas eles precisam de nós para trabalhar nas fábricas", diz a Tânia, a "mãe" como eles lhe chamam, porque ela trata deles, arranjas-lhes casa, garante que têm trabalho e recebem o salário todas as semanas, a "puta de merda" como eles também lhe chamam, porque é ela que os engana com palavras doces, promete-lhes "good amenities" mas depois guarda-lhes os passaportes e prende-os naquela cidade sem sol onde os portugueses são tratados abaixo de cão (e a expressão aqui tem todo o sentido).  A Tânia, brilhante interpretação de Beatriz Batarda. Não é a única, mas é a que se destaca, porque é ela que nos conduz durante todo o filme. É com ela que acordamos todos os dias, ainda noite cerrada, é com ela que entramos na fábrica e sentimos o estômago às voltas, é com ela que sonhamos com dias de sol e dançamos ao som de Beverly Craven, "Promise me, you wait for me, 'cause I'll be saving all my love for you". Só o amor lhe (nos) dá alguma esperança. Só o amor lhe descobre as fragilidades. O amor, que amolece corações, não é bom conselheiro nos negócios, já o sabemos. Mas é o risco que temos de correr. "Comfortably", dizer mil vezes até conseguir acertar na pronúncia correcta e mesmo assim não saber como é, "comfortably".


Great Yarmouth é o filme que surgiu depois do espectáculo Provisional Figures - falei dele AQUI.


Se gostam de ficar desassossegados, não percam.


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Sunday, March 19, 2023

"Liberdade, querida Liberdade, o nosso chão tem sonhos e vontade"

Às vezes somos tão arrebatados por uma experiência que nem temos muitas palavras para o exprimir. Aconteceu-me há uma semana, com o concerto da Garota Não, em Almada. Eu já sabia como a música era boa e como as letras eram incisivas e poéticas ao mesmo tempo, já andava há que tempos a cantar No dia do teu casamentoDilúvio ("e a vida fica difícil/ o tempo passa tipo míssil/ derramado em suor") e as outras todas, mas vê-la e ouvi-la em palco é ainda mais forte. Por ela, que vai falando connosco, contando-nos as histórias de cada tema, dizendo-nos das suas lutas, do bairro onde nasceu (leiam este texto, que está lá tudo), do pai que conheceu o músico Sérgio Mendes e lhe disse "a minha filha também faz uma canções", da mãe que lhe ensinou a empatia e a democracia e lhe deixou saudades. Pela experiência colectiva, uma sala inteira a cantar um poema de Eugénio de Andrade e outro de Chico Buarque, os temas de Sérgio Godinho, as homenagens a Fausto e José Mário Branco. Pela beleza de tudo, cada palavra a ecoar cá dentro, cada nota a dar sentido àquela noite. Emocionei-me, claro, como não me emocionar?, com um concerto que foi, todo ele, um manifesto pela liberdade e pelo amor, pelas vozes que não se calam, por nós, que precisamos todos os dias de acreditar que podemos fazer deste um lugar melhor. "Foi uma noite que me partiu ao meio, precisei de alguns dias para recuperar", escreveu ela nas redes sociais. E acho que foi isso, para todos nós. Saímos de lá - eu, a Alda e a Ana - meio azamboadas, com as lágrimas nos olhos e os corações nas mãos, a abraçarmo-nos de felicidade, uma felicidade enorme por termos estado ali, uma daquelas alegrias que não se explicam.



Este é o vídeo - para ver até ao fim! - para mais tarde recordar a lata com que, armadas em groupies, aparecemos no camarim a pedir autógrafos e fotografias.

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Saturday, March 11, 2023

Tudo a postos para os Óscares

De todos os filmes que estão nomeados aos Óscares, o meu favorito é Aftersun, de Charlotte Wells. Infelizmente, e mais uma vez, este filme extraordinário não está nomeado para o Óscar de Melhor Filme, portanto, o que vos posso dizer?


Dos dez nomeados, não vi o Avatar, porque há limites e até mesmo eu, que acho divertido isto de ver os filmes nomeados, não me sujeito a tudo. Dos que vi, os meus preferidos são, mais ou menos por esta ordem, que isto depende um bocadinho dos dias, estes:


Tár


A Voz das Mulheres


Os Espíritos de Inisherin


A Oeste Nada de Novo


Os Fabelmans


Ao que tudo indica, o vencedor da noite deverá ser o filme Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo, de Daniel Kwan e Daniel Scheiner, que é, para mim, um fenómeno absolutamente incompreensível. Aquela parte mais realista, da família de imigrantes chineses que tem uma lavandaria e enfrenta dificuldades financeiras até é bastante boa. As questões culturais, as relações familiares, o casal em crise, a mãe e a filha, a mãe e o avô, sim, senhor, estava tudo a ir lindamente. Mas, depois, meteram-se os universos paralelos e aí perderam-me. Não tenho paciência. Ah, porque uma decisão pode mudar uma vida. Verdade, e é fixe imaginar como seria se. Mas metaversos não é para mim. Nem lutas de kung fu. Nem viagens intergalácticas. Nem pedras que falam. Pronto.


Do Elvis já está tudo dito.


O Top Gun é o que é. Fui vê-lo ao cinema com o meu filho mais novo e comemos pipocas e foi divertido, sobretudo porque me trouxe muitas memórias dos anos 80, mas, please, nem percebo a nomeação. 


O Triângulo da Tristeza, de Ruben Östlund, até começa bem e tem ali acertadas críticas ao mundo das aparências em que vivemos actualmente, a moda, as influencers, os milionários, um cruzeiro cheio de gente que tem dinheiro mas não tem muito mais do que isso. A coisa começa a descambar com a personagem do comandante do navio e fica completamente descontrolada quando entra em modo Lost. Já todos sabemos que numa ilha deserta o dinheiro não vale nada e que é nas adversidades que se vê quem são de facto as pessoas, então, o filme que se queria cómico transforma-se num enorme e aborrecido cliché.


Fora da categoria principal:


Vi o Blonde, de Andrew Dominik, mas achei tão mau, tão mau que não tenho palavras; 


Gostei bastante de O Império da Luz, de Sam Mendes;


Viver, de Oliver Hermanust, é um filme simpático (tirava-lhe ali uns minutos de lamechice na parte final) com uma extraordinária interpretação de Bill Nighy. Eu dava-lhe o Óscar (mesmo adorando Paul Mescal);


No entanto, parece que o Óscar de Melhor Actor há-de ir para Brendan Fraser, porque já sabemos que a Academia adora uma boa transformação e uma boa caracterização. Já eu não verti uma lágrima com A Baleia, de Darren Aronofsky, e olhem que eu choro com qualquer coisa. Mas nao tenho grande pachorra para filmes de coitadinhos, sobretudo quando parecem mesmo feitos para nos pôr a chorar baba e ranho;


Para Leslie, de Michael Morris, também não é um mau filme e percebo a nomeação da actriz Andrea Riseborough - mas por mim dava o Óscar à Cate Blanchett ou à Michelle Yeoh (mesmo sem gostar do filme, acho que os actores estão todos óptimos);


Ah, e ainda há o "nosso" filme: a curta-metragem de animação Ice Merchants, de João Gonzalez. Não deverá ganhar mas é um orgulho. Vejam-na no cinema ou na televisão porque é muito bonita. 


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Tuesday, March 07, 2023

Mulheres: não mais caladas

A propósito do Dia da Mulher, que amanhã se assinala: dois filmes que têm temas diferentes mas que, no fundo, falam da mesma coisa:


Ela Disse, de Maria Schrader, acompanha as duas jornalistas do The New York Times, Jodi Kantor e Meghan Thowey, que, em 2017, investigaram os abusos do produtor de cinema Harvey Weinstein. Durante anos, Weinstein, director da Miramax, usou a sua posição na indústria de cinema para abusar de jovens mulheres - algumas trabalhavam para ele, eram assistentes, secretárias, etc., outras eram actrizes no início de carreira. Lembro-me do quão enojada fiquei quando tudo isto se ficou a saber. Não foi uma nem duas vezes. Weinstein fazia isto por sistema, fê-lo muitas vezes (houve 107 mulheres que o acusaram, provavelmente haverá mais vítimas), e contava com a cumplicidade e a ajuda não só de outros trabalhadores (e trabalhadoras) como de grande parte do meio cinematográfico. É incrível percebermos como até há tão pouco tempo estes porcos abusadores podiam pavonear-se por aí impunemente, com a certeza de que ninguém teria coragem de os denunciar e que, se alguém o fizesse, bastava pedir aos seus caríssimos advogados para pagar o silêncio destas mulheres amendrontadas. Conseguir que essas mulheres falassem, conseguir derrubar o muro de silêncio em volta do assédio e dos abusos foi a grande conquista das duas jornalistas. E ver isso a acontecer neste filme é, para uma jornalista, quase como ver Os Homens do Presidente, o filme de 1976 sobre o caso Watergate - é lembramo-nos que existem jornalistas que de facto fazem a diferença e quão importante é o jornalismo quando é bem feito (depois há ali coisas que nós sabemos que não são bem assim, como, por exemplo, ninguém, e muito menos uma jornalista de investigação do NYT, faz telefonemas importantes para fontes ainda mais importantes enquanto se passeia numa rua de Manhattan ou enquanto entra no elevador do edifício da Oitava Avenida, mas, vá, a gente dá o desconto).



A Voz das Mulheres, de Sarah Polley, é um filme admirável por motivos totalmente distintos. O filme inspira-se nos acontecimentos na Colónia Manitoba, uma colónia de cristãos evangélicos na Bolívia, onde se descobriu que entre 2005 e 2009 um grupo de homens sedava as raparigas e as mulheres, com anestésicos para animais e, depois, durante a noite, as violava. As mulheres acordavam ensanguentadas e com dores mas na maioria das vezes não se lembravam com precisão do que tinha acontecido. Isso é da tua imaginação, disseram-lhes. Estás a inventar coisas. Ou então: isso é obra do demónio. Quando finalmente os homens foram apanhados no acto, a polícia foi chamada, concluindo-se que havia pelo menos cem vítimas, com idades entres os três (!) e os 65 anos. Oito homens foram acusados e condenados à prisão. O filme ficciona uma colónia semelhante, onde estes eventos ocorreram. Os violadores estão detidos a aguardar julgamento, os homens da colónia foram à cidade para tentar pagar as cauções, e as mulheres organizam-se para decidir o que podem fazer a seguir: perdoar e deixar tudo como antes; lutar (por quê? como?); partir, ou seja, abandonar a colónia. Têm apenas um par de dias para tomar essa decisão. O debate entre as mulheres, mais velhas e mais novas, solteiras e casadas, mais conservadoras ou mais progressistas, é um tratado sobre a condição feminina. E aquilo que ali se passa - algures, numa data indefinida, numa colónia religiosa, fundamentalista e fechada, que parece ter parado no tempo e viver ainda no século XIX - tem tudo a ver connosco. A influência da educação e da tradição naquilo que somos, os homens que não são todos iguais, as mulheres que também não o são, a violência doméstica, as questões transgénero, a masculinidade tóxica, a importância da religião, o poder - são tantas as questões que são ali abordadas. O que é a liberdade para quem nunca foi livre? Que escolhas temos? O que pode ambicionar quem não sabe ler, quem nunca foi à escola, quem nunca teve direito a ter opinião? Que voz é esta das mulheres quando finalmente se faz ouvir? Rooney Mara, Claire Foy, Jessie Buckley, Judith Ivey, Frances McDormand e todas as outras são maravilhosas. Este filme emocionou-me muito.



E, já agora, está patente até 23 de abril, no Museu de Serralves, no Porto, a exposição Metamorphosis, de Cindy Sherman. Esta também não se cala.


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Sunday, March 05, 2023

Dance while you can

Death's Echo, de W.H. Auden


“(...) “O life’s too short for friends who share,”
Travellers think in their hearts,
“The city’s common bed, the air,
The mountain bivouac and the bathing beach,
Where incidents draw every day from each
Memorable gesture and witty speech.”
So travellers think in their hearts,
Till malice or circumstance parts
Them from their constant humour:
And slyly Death’s coercive rumour
In that moment starts:
A friend is the old old tale of Narcissus,
Not to be born is the best for man;
An active partner in something disgraceful,
Change your partner, dance while you can.


“O stretch your hands across the sea,”
The impassioned lover cries,
“Stretch them towards your harm and me.
Our grass is green, and sensual our brief bed,
The stream sings at its foot, and at its head
The mild and vegetarian beasts are fed.”
So the impassioned lover cries
Till the storm of pleasure dies:
From the bedpost and the rocks
Death’s enticing echo mocks,
And his voice replies:
The greater the love, the more false to its object,
Not to be born is the best for man;
After the kiss comes the impulse to throttle,
Break the embraces, dance while you can.


“I see the guilty world forgiven,”
Dreamer and drunkard sing,
“The ladders let down out of heaven,
The laurel springing from the martyr’s blood,
The children skipping where the weeper stood,
The lovers natural and the beasts all good.”
So dreamer and drunkard sing
Till day their sobriety bring:
Parrotwise with Death’s reply
From whelping fear and nesting lie,
Woods and their echoes ring:
The desires of the heart are as crooked as corkscrews,
Not to be born is the best for man;
The second-best is a formal order,
The dance’s pattern; dance while you can.


Dance, dance, for the figure is easy,
The tune is catching and will not stop;
Dance till the stars come down from the rafters;
Dance, dance, dance till you drop."


 


Um poema que descobri graças ao filme Império da Luz, de Sam Mendes, com a grande Olivia Colman. Um filme sobre a solidão. Sobre a solidão de uma mulher. Sobre a solidão de uma mulher que já não é muito nova. Sim, é também um filme sobre mim. Sobre as pequenas estratégias que encontramos para lidar com isto. Sobre a importância de termos quem nos veja como realmente somos. E sobre dançar, enquanto podemos, mesmo que seja em casa, sem sapatos, sem par. 


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Wednesday, March 01, 2023

O pão que eu amassei

Tenho muitas dúvidas que vá conseguir fazer pão em casa. Mas esta tarde de sábado bem passada já ninguém me tira. Aprendi muito a ouvir o senhor João, guardador de sementes antigas, e a Ana Raquel, que nos iniciou nos segredos da massa-mãe. Além disso, estive com pessoas boas (umas amigas, outras completamente desconhecidas), desligámos do mundo durante umas horas, metemos as mãos na massa e comemos pão quente feito por nós, o que é todo um orgulho que nem vos conto. Se não fizer mais pão, estarei pelo menos mais atenta ao comprar.


O avental lindo foi bordado pela minha mãe.


As gargalhadas que se imaginam sonoras são minhas, claro.


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