Monday, June 20, 2022

John Cleese não tem assim tanta graça

(texto praí com três semanas de atraso, mas mais vale tarde do que nunca)

Fui ver o espectáculo Last time to see me before I die, do John Cleese. Acho que quase todos os que ali estavam naquele dia (e nos outros dias, o homem conseguiu encher o coliseu para seis espectáculos) foram sobretudo por causa das boas memórias dos Monty Python e da série Faulty Towers. Sabendo disso, o humorista deu-nos bastantes memórias. E foi fixe ouvi-lo a contar histórias desses tempos, mesmo que algumas dessas histórias já fossem bastante conhecidas, e a fazer algumas reflexões sobre porque é que aquele tipo de humor teve tanto sucesso. 

O que foi menos fixe foi perceber que, para além disso, ele tinha pouco mais a oferecer. Só uma lenga-lenga contra a "cultura de cancelamento" (ou "cultura woke") que vai-se a ver em 2022 já tem muito pouco de revolucionário e parece só rabujice. Eu, que não sou a maior fã de humor em geral nem de Monty Python em particular (ai, o escândalo, como é possível? pois, é verdade. acho que algumas coisas têm graça, outras mais ou menos e outras são só tontas, pronto) mas sou completamente contra cancelamentos e linchamentos públicos, senti só muita pena daquele velhote sem noção - e alguma vergonha alheia, em alguns momentos, confesso. 

É verdade que instintivamente rimo-nos de coisas que racionalmente não têm graça. Rimo-nos ao ver pessoas a cair e todo esse género de trapalhices (Chaplin sabia-o bem). Rimo-nos, infantilmente, quando alguém diz piadas com segundos sentidos "marotos" ou expressões proibidas. Rimo-nos de coisas muito parvas. Não há mal nenhum nisso. Nesse ponto, Cleese tem razão. Há um lado mais básico da comédia que evoluiu muito pouco. Mas também é verdade que o humor é das formas de arte que envelhece pior. Aquilo que era transgressor ou surpreendente nos anos 70 ou 80, hoje já nos parece banal. E ainda bem que assim é. Estranho seria se fosse de outra forma. Podemos defender que O Tal Canal de Herman José foi um programa importantíssimo quando estreou e, ao mesmo tempo, admitir que ao ver aquilo agora já não damos assim tantas gargalhadas.

O que é verdadeiramente incompreensível é não compreender isto e insistir em ficar parado no tempo.

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