Tuesday, July 11, 2023

Dançar no jardim

Fui só um dia, que a agenda não me permitiu mais, mas acabou por ser uma tarde gloriosa. E ouvi e li muitos relatos por aí. A segunda edição do Jardim de Verão, na Fundação Calouste Gulbenkian, programado por Dino d'Santiago, confirmou-se como um espaço de diversidade, igualdade, partilha e empatia, como infelizmente ainda há poucos nesta cidade que se diz tão diversa. Havia ali uma alegria que se sentia no ar. O que faz a diferença não é tanto a diversidade, que a essa pelo menos alguns de nós já estamos habituados, embora noutros contextos. O que faz a diferença é precisamente ver essa diversidade num espaço institucional e elitista, onde ela é tão pouco comum. Como escreveu o Vítor Belanciano: a "prova de que é possível fazer a diferença quando lugares institucionais de grande representatividade para o colectivo estão dispostos a partilhar o poder, o espaço, os sentidos e os imaginários, envolvendo de forma muito concreta quem por norma não acede a eles". É um caminho e é bom que esteja a ser feito.


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Fotografia retirada do Facebook da Fundação Calouste Gulbenkian


(Aliás, abrir parêntesis aqui para dizer que o Belanciano continua a ter um dos olhares mais atentos e instigadores sobre a cultura contemporânea - pop ou urbana ou outra - e que, polémicas à parte, é sempre um prazer lê-lo, por agora só nas redes sociais.)

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Monday, July 10, 2023

Detemo-nos antes de continuar

"A realidade só se mostra quando paramos, quando nos detemos antes de continuarmos", escreve Susana Moreira Marques. Está a falar como jornalista, como observadora, como pessoa que procura histórias e que quer entender o mundo à sua volta. É preciso tempo. Isto aplica-se ao jornalismo mas também à vida. É preciso tempo. Li o Lenços Pretos, Chapéus de Palha e Brincos de Ouro estendida numa espreguiçadeira, à sombra, à beira da piscina num hotel em Évora. Estava imenso calor. Os putos alternavam entre mergulhos para refrescar e ficar no quarto, ao abrigo do ar condicionado, com a cabeça enfiada nos telemóveis. Nas férias não há hora para deitar nem para acordar nem para almoçar. Deixamo-nos ir, simplesmente. Às vezes, entediamo-nos. Estivemos quase sempre calados. Conversávamos sobretudo durante as refeições, eu ri-me das parvoíces infantis deles, eles riram das minhas parvoíces de velha. Jogámos snooker. Tivemos conversas sérias. Achei-os crescidos. Durante uns dias, ali e depois mais a sul, existimos quase fora do mundo. Suspendemos a vida. Como se não houvesse problemas para resolver, como se na semana anterior eu não me tivesse zangado muito por causa de coisas graves, como se três semanas antes eu não estivesse preocupadíssima por causa de outras coisas graves, como se não houvesse decisões importantes a tomar, como se estivesse tudo bem. É esse o fabuloso super-poder das férias. Temos tempo. Para fugir daquilo que somos todos os dias. 


E depois continuamos.


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O livro é uma reflexão muito importante e bonita sobre o que é isto de ser mulher, a partir da viagem de Maria Lamas, no final dos anos 40, e da sua obra Mulheres do Meu País. Lembrou-me as minhas avós. Fez-me pensar na sorte que temos hoje e no quanto ainda nos falta andar. E fez-me pensar no tempo e na importância de abrandar.

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