Tuesday, August 31, 2021

Chico, o meu match

No meu perfil do Tinder (nas fases, raras, em que tenho o perfil do Tinder activo), em vez de uma auto-descrição tenho um excerto de uma canção do Chico, que está identificado como autor assim mesmo, (Chico), entre parêntesis. Vamos deixar para lá o porquê de eu não saber auto-descrever-me e vamos concentrar-nos nisto: um dia, um tal de Pedro, que até tinha bom ar e uma auto-descrição catita, mandou-me uma mensagem em que tentava meter conversa: "olá, quem é o Chico?". Fui incapaz de lhe responder. Dir-me-ão que é um pouco de soberba da minha parte. De preconceito, até. Será. Mas é o que temos. Não lhe exigiria que conhecesse a música, que até nem é das mais óbvias (se bem que pode consultar o amigo google e fazer boa figura, não é?, sempre mostra um esforço), mas não saber quem é o Chico é too much. Não consigo lidar.


Lembrei-me desta história porque estive a ver o documentário sobre Chico Buarque que está na Netflix e pensei que é incrível como mesmo sendo um documentário fraquinho, sem qualquer rasgo e até com alguns defeitozitos técnicos que me parecem inadmissíveis, até mesmo com aquelas versões absolutamente dispensáveis interpretadas por outros cantores, é impossível não nos deliciarmos a ver um documentário com o Chico. Ele é lindo, novo ou velho, a cores ou a preto e branco, e até de bigode, o que é difícil. E é um encanto ouvi-lo, contar aquelas histórias, rir-se de si mesmo, mostrar uma humildade desarmante, perceber-lhe as ideias, invejar-lhe a liberdade. Isto sem falar das canções, claro.


Esta, por exemplo, que eu já não ouvia há tanto tempo e é extraordinário como continuo a sabê-la de cor e a emocionar-me com cada palavra, como quando a ouvi pela primeira vez, era ainda uma adolescente e chorava sozinha, às escuras na sala, com os discos de vinil do meu pai.



Conclusão da história: o Chico Buarque faz-nos bem, quem o ouve é mais feliz, e até pode valer um engate, por isso, homens deste mundo, vão lá ouvir o Chico e, por favor, evitem dizer coisas como "eu também gosto muito de música, gosto do João Pedro Pais, conheces?" (true story, juro).


E ainda, só por curiosidade: aos 77 anos, Chico Buarque vai casar-se com Carol Proner, de 47. Acho lindo. E, depois, não digam que não acreditam em histórias de amor.

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Chico, o meu match

No meu perfil do Tinder (nas fases, raras, em que tenho o perfil do Tinder activo), em vez de uma auto-descrição tenho um excerto de uma canção do Chico, que está identificado como autor assim mesmo, (Chico), entre parêntesis. Vamos deixar para lá o porquê de eu não saber auto-descrever-me e vamos concentrar-nos nisto: um dia, um tal de Pedro, que até tinha bom ar e uma auto-descrição catita, mandou-me uma mensagem em que tentava meter conversa: "olá, quem é o Chico?". Fui incapaz de lhe responder. Dir-me-ão que é um pouco de soberba da minha parte. De preconceito, até. Será. Mas é o que temos. Não lhe exigiria que conhecesse a música, que até nem é das mais óbvias (se bem que pode consultar o amigo google e fazer boa figura, não é?, sempre mostra um esforço), mas não saber quem é o Chico é too much. Não consigo lidar.


Lembrei-me desta história porque estive a ver o documentário sobre Chico Buarque que está na Netflix e pensei que é incrível como mesmo sendo um documentário fraquinho, sem qualquer rasgo e até com alguns defeitozitos técnicos que me parecem inadmissíveis, até mesmo com aquelas versões absolutamente dispensáveis interpretadas por outros cantores, é impossível não nos deliciarmos a ver um documentário com o Chico. Ele é lindo, novo ou velho, a cores ou a preto e branco, e até de bigode, o que é difícil. E é um encanto ouvi-lo, contar aquelas histórias, rir-se de si mesmo, mostrar uma humildade desarmante, perceber-lhe as ideias, invejar-lhe a liberdade. Isto sem falar das canções, claro.


Esta, por exemplo, que eu já não ouvia há tanto tempo e é extraordinário como continuo a sabê-la de cor e a emocionar-me com cada palavra, como quando a ouvi pela primeira vez, era ainda uma adolescente e chorava sozinha, às escuras na sala, com os discos de vinil do meu pai.



Conclusão da história: o Chico Buarque faz-nos bem, quem o ouve é mais feliz, e até pode valer um engate, por isso, homens deste mundo, vão lá ouvir o Chico e, por favor, evitem dizer coisas como "eu também gosto muito de música, gosto do João Pedro Pais, conheces?" (true story, juro).


E ainda, só por curiosidade: aos 77 anos, Chico Buarque vai casar-se com Carol Proner, de 47. Acho lindo. E, depois, não digam que não acreditam em histórias de amor.

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Sunday, August 29, 2021

A felicidade nas coisas pequenas (XLVIII)

Acho que há poucas coisas melhores do que isto. Um fim da tarde com calor. Aquela hora em que o sol já está a descer e a praia vai ficando vazia. Eu com um livro. Os putos a brincar e a dar mergulhos. Acontecem cada vez menos estes momentos em que eles se divirtem juntos, sem implicações nem aborrecimentos, mas quando acontecem fico com a alma cheia. É tão bom vê-los assim felizes. É como se todos os nossos problemas desaparecessem por um bocadinho. 


IMG_20210825_194031.jpg


Só que é mesmo só por um bocadinho.

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A felicidade nas coisas pequenas (XLVIII)

Acho que há poucas coisas melhores do que isto. Um fim da tarde com calor. Aquela hora em que o sol já está a descer e a praia vai ficando vazia. Eu com um livro. Os putos a brincar e a dar mergulhos. Acontecem cada vez menos estes momentos em que eles se divirtem juntos, sem implicações nem aborrecimentos, mas quando acontecem fico com a alma cheia. É tão bom vê-los assim felizes. É como se todos os nossos problemas desaparecessem por um bocadinho. 


IMG_20210825_194031.jpg


Só que é mesmo só por um bocadinho.

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Friday, August 27, 2021

As desculpas que os homens (me) dão

Eu gosto muito de ti, tu és fantástica e maravilhosa mas...


1. ... afinal, eu decidi que vou ficar com outra pessoa/ vou voltar para a minha ex;


2. ...neste momento eu não estou à procura de/ não estou preparado para uma relação;


3. ... eu não quero estragar a nossa amizade. Por gostar tanto de ti, acho que não nos devemos envolver.


Na verdade, isto tudo significa apenas uma coisa: eu não acho que tu sejas assim tão fantástica e maravilhosa e eu não gosto assim tanto de ti.


Porque não assumir isso, simplesmente?


Estou muito farta de ser "fantástica e maravilhosa mas".


Estou muito farta de homens com "mas" nas frases.


Estou muito farta de "mas".


Estou muito farta.

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As desculpas que os homens (me) dão

Eu gosto muito de ti, tu és fantástica e maravilhosa mas...


1. ... afinal, eu decidi que vou ficar com outra pessoa/ vou voltar para a minha ex;


2. ...neste momento eu não estou à procura de/ não estou preparado para uma relação;


3. ... eu não quero estragar a nossa amizade. Por gostar tanto de ti, acho que não nos devemos envolver.


Na verdade, isto tudo significa apenas uma coisa: eu não acho que tu sejas assim tão fantástica e maravilhosa e eu não gosto assim tanto de ti.


Porque não assumir isso, simplesmente?


Estou muito farta de ser "fantástica e maravilhosa mas".


Estou muito farta de homens com "mas" nas frases.


Estou muito farta de "mas".


Estou muito farta.

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Friday, August 13, 2021

Aceita-te a ti mesma

As mulheres passam muito tempo a falar sobre o seu corpo, sobre os defeitos do seu corpo, sobre o que têm de fazer para melhorar o seu corpo. Reparei nisso em todos os meus grupos de amigas, não é uma coisa que afecte mais umas do que outras, é geral. Gordura, peso a mais, celulite, rugas, peles flácidas, pêlos, de tudo isto as mulheres se queixam. Olham-se ao espelho e vêem mil falhas. Eu é as ancas, eu o rabo, eu as pernas, eu a barriga, as mamas que são pequenas ou que são grandes demais. Até mesmo as que têm tudo no sítio insistem em encontrar imperfeições. As mulheres planeiam dietas e exercício físico, discutem métodos, trocam experiências, menus e receitas, beber muita água, fazer jejum intermitente, eliminar os hidratos, contar as calorias, correr quilómetros, ir ao ginásio, contratar um PT. As mais determinadas ponderam consultas com médicos diversos, comprimidos milagrosos, intervenções cirúrgicas. É uma tarefa sempre em progresso. Marca-se um jantar e em algum momento o assunto aparece. Há sempre alguém que não vai pedir sobremesa, que não pode comer pão ou batatas fritas ou arroz, ou que avisa que vai comer mas só porque é um dia excepcional, o meu dia da asneira. Há sempre alguém a precisar de se controlar, de fechar a boca, para, definitivamente, emagrecer. É esse o objetivo. Emagrecer. As mulheres querem-se magras. 


Não estou a criticar as outras mulheres, atenção. Eu não sou excepção. Eu também sou em parte assim. Eu também queria ser magra. Eu também odeio os mil defeitos do meu corpo. E há momentos em que odeio todo o meu corpo. Eu também morro de vergonha ao ir à praia, sinto-me meia desconchavada ao vestir um biquíni, odeio comprar roupa porque concluo sempre que nada me serve e tudo me fica mal e, como é óbvio, morro de medo que os homens não gostem de mim por me acharem feia e gorda. Essa sou eu no meu dia-a-dia, com a auto-estima bem lá em baixo.


A única diferença é que eu combato esta vergonha do corpo de uma maneira muito peculiar (reparem na palavra, eu não digo que é a maneira certa, é só a maneira que eu arranjei para lidar com isto e tentar sofrer o mínimo possível). Nunca fiz uma dieta nem nunca tive um plano de exercício destinado a melhorar o meu corpo. A batalha acontece toda dentro da minha cabeça. É uma batalha enorme entre todos os meus traumas de mulher, todos os ideais de beleza que me foram inculcados e todos os estereotipos que se entranharam em mim desde que nasci e dos quais, por muito que queira, não consigo fugir, e aquela certeza, que fui adquirindo, conscientemente, deliberadamente, de que um corpo é só um corpo, que este corpo, que é meu e do qual não me posso livrar, que é na verdade aquilo que tenho de mais irredutível, não pode, apesar disso, ser o que me define. Que eu sou muito mais do que um corpo. Que qualquer mulher é muito mais do que um corpo. 


É uma batalha, digamos assim, entre sentimentos e razão. Racionalmente, eu estou-me nas tintas para o corpo e sei que não é isso que importa, mas no fundo, lá bem no fundo, sou uma fútil como todas as outras.


Portanto, se estiver vestida, se estiver feliz, se estiver bem com a minha vida, consigo ser super-racional. Sinto-me invencível, quero lá saber de como é que deveria ser o meu corpo. Mas quando estou mais exposta, quando algo corre mal, nos momentos em que me sinto mais frágil por algum motivo, é como se o meu corpo passasse a pesar mais vinte quilos, sinto-me miserável, não tenho dúvidas de que sou uma baleia e de que nunca ninguém (leia-se, um homem) vai alguma vez gostar de mim.


É que, depois, ainda há isto, temos de reconhecê-lo, somos todas mulheres modernas e emancipadas e preocupamo-nos com o nosso corpo não por causa dos outros mas porque queremos ser saudáveis e sentirmo-nos bonitas para nós (se eu não gostar de mim, quem gostará?, não era assim o anúncio?), mas a verdade é que é muito mais fácil gostar de nós próprias quando há alguém que também gosta e nos mima e nos diz que somos maravilhosas. A minha luta, muito pessoal, também passa por aqui. 


Como vêem, não é fácil estar dentro da minha cabeça. Está cheia de contradições e de coisas de que não gosto mas que não consigo evitar. Acho que já tinha explicado mais ou menos isto antes. Este também é um trabalho em constante progresso. Acredito muito que ter consciência das nossas falhas é um passo importante para melhorarmos.


Por isso, hoje, só porque sim, avanço mais um pouco nesta auto-terapia, dizendo: este é o meu corpo.


WhatsApp Image 2021-07-24 at 23.51.47.jpeg


A foto foi tirada pela Filipa num dia feliz. Encolhida, claro, para esconder as banhas. Mesmo assim, jurei que nunca a mostraria a ninguém. Mas agora achei que era ideal para acompanhar este texto, em jeito de perde a vergonha e assume os teus podres e os teus quilos, só possível graças às conversas recentes com a Ângela e com o Tiago que, cada um ao seu jeito, me fizeram perceber o quanto ainda tenho por andar neste processo de auto-aceitação e auto-estima.


Isto sou eu a aprender a ser feliz no meu corpo.


E a rir, pelo caminho.


(oxalá não tropece e me espatife toda)

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Aceita-te a ti mesma

As mulheres passam muito tempo a falar sobre o seu corpo, sobre os defeitos do seu corpo, sobre o que têm de fazer para melhorar o seu corpo. Reparei nisso em todos os meus grupos de amigas, não é uma coisa que afecte mais umas do que outras, é geral. Gordura, peso a mais, celulite, rugas, peles flácidas, pêlos, de tudo isto as mulheres se queixam. Olham-se ao espelho e vêem mil falhas. Eu é as ancas, eu o rabo, eu as pernas, eu a barriga, as mamas que são pequenas ou que são grandes demais. Até mesmo as que têm tudo no sítio insistem em encontrar imperfeições. As mulheres planeiam dietas e exercício físico, discutem métodos, trocam experiências, menus e receitas, beber muita água, fazer jejum intermitente, eliminar os hidratos, contar as calorias, correr quilómetros, ir ao ginásio, contratar um PT. As mais determinadas ponderam consultas com médicos diversos, comprimidos milagrosos, intervenções cirúrgicas. É uma tarefa sempre em progresso. Marca-se um jantar e em algum momento o assunto aparece. Há sempre alguém que não vai pedir sobremesa, que não pode comer pão ou batatas fritas ou arroz, ou que avisa que vai comer mas só porque é um dia excepcional, o meu dia da asneira. Há sempre alguém a precisar de se controlar, de fechar a boca, para, definitivamente, emagrecer. É esse o objetivo. Emagrecer. As mulheres querem-se magras. 


Não estou a criticar as outras mulheres, atenção. Eu não sou excepção. Eu também sou em parte assim. Eu também queria ser magra. Eu também odeio os mil defeitos do meu corpo. E há momentos em que odeio todo o meu corpo. Eu também morro de vergonha ao ir à praia, sinto-me meia desconchavada ao vestir um biquíni, odeio comprar roupa porque concluo sempre que nada me serve e tudo me fica mal e, como é óbvio, morro de medo que os homens não gostem de mim por me acharem feia e gorda. Essa sou eu no meu dia-a-dia, com a auto-estima bem lá em baixo.


A única diferença é que eu combato esta vergonha do corpo de uma maneira muito peculiar (reparem na palavra, eu não digo que é a maneira certa, é só a maneira que eu arranjei para lidar com isto e tentar sofrer o mínimo possível). Nunca fiz uma dieta nem nunca tive um plano de exercício destinado a melhorar o meu corpo. A batalha acontece toda dentro da minha cabeça. É uma batalha enorme entre todos os meus traumas de mulher, todos os ideais de beleza que me foram inculcados e todos os estereotipos que se entranharam em mim desde que nasci e dos quais, por muito que queira, não consigo fugir, e aquela certeza, que fui adquirindo, conscientemente, deliberadamente, de que um corpo é só um corpo, que este corpo, que é meu e do qual não me posso livrar, que é na verdade aquilo que tenho de mais irredutível, não pode, apesar disso, ser o que me define. Que eu sou muito mais do que um corpo. Que qualquer mulher é muito mais do que um corpo. 


É uma batalha, digamos assim, entre sentimentos e razão. Racionalmente, eu estou-me nas tintas para o corpo e sei que não é isso que importa, mas no fundo, lá bem no fundo, sou uma fútil como todas as outras.


Portanto, se estiver vestida, se estiver feliz, se estiver bem com a minha vida, consigo ser super-racional. Sinto-me invencível, quero lá saber de como é que deveria ser o meu corpo. Mas quando estou mais exposta, quando algo corre mal, nos momentos em que me sinto mais frágil por algum motivo, é como se o meu corpo passasse a pesar mais vinte quilos, sinto-me miserável, não tenho dúvidas de que sou uma baleia e de que nunca ninguém (leia-se, um homem) vai alguma vez gostar de mim.


É que, depois, ainda há isto, temos de reconhecê-lo, somos todas mulheres modernas e emancipadas e preocupamo-nos com o nosso corpo não por causa dos outros mas porque queremos ser saudáveis e sentirmo-nos bonitas para nós (se eu não gostar de mim, quem gostará?, não era assim o anúncio?), mas a verdade é que é muito mais fácil gostar de nós próprias quando há alguém que também gosta e nos mima e nos diz que somos maravilhosas. A minha luta, muito pessoal, também passa por aqui. 


Como vêem, não é fácil estar dentro da minha cabeça. Está cheia de contradições e de coisas de que não gosto mas que não consigo evitar. Acho que já tinha explicado mais ou menos isto antes. Este também é um trabalho em constante progresso. Acredito muito que ter consciência das nossas falhas é um passo importante para melhorarmos.


Por isso, hoje, só porque sim, avanço mais um pouco nesta auto-terapia, dizendo: este é o meu corpo.


WhatsApp Image 2021-07-24 at 23.51.47.jpeg


A foto foi tirada pela Filipa num dia feliz. Encolhida, claro, para esconder as banhas. Mesmo assim, jurei que nunca a mostraria a ninguém. Mas agora achei que era ideal para acompanhar este texto, em jeito de perde a vergonha e assume os teus podres e os teus quilos, só possível graças às conversas recentes com a Ângela e com o Tiago que, cada um ao seu jeito, me fizeram perceber o quanto ainda tenho por andar neste processo de auto-aceitação e auto-estima.


Isto sou eu a aprender a ser feliz no meu corpo.


E a rir, pelo caminho.


(oxalá não tropece e me espatife toda)

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Wednesday, August 04, 2021

Simone

Tenho passado os dias entre o trabalho e os Jogos Olímpicos de que, como vocês devem saber, sou grande fã. Sou aquela maluquinha que, mesmo já sabendo os resultados, põe a box para trás para ver o que perdeu durante a madrugada. Gosto particularmente do atletismo e da ginástica. Desde sempre. E foi por isso com grande pena que vi a Simone Biles desistir de quase todas as suas provas. Nem consigo imaginar o que ela deve estar a sentir. Primeiro, não consigo imaginar o que é ter 19 anos e estar a competir nos Jogos Olímpicos e ganhar tantas medalhas, como aconteceu com ela no Rio de Janeiro. A mim, que se me acelera o coração se tiver que falar em público, que ainda hoje me tremem as pernas se sentir que estou a ser avaliada em qualquer situação, acho que nunca seria capaz de competir em coisa nenhuma. Não consigo imaginar como será ser a melhor do mundo e sentir toda a pressão que ela sentiu para repetir os feitos, como aconteceu antes destes jogos. E, finalmente, não consigo imaginar como será treinar durante tanto tempo - praticamente uma vida inteira - e com tanto empenho para, depois, chegar ali, ao momento mais importante, e desistir. Mas uma coisa eu consigo imaginar: o sofrimento enorme que esta decisão lhe deve ter causado. Não é uma decisão que se tome de ânimo leve. Para que um atleta, seja a Simone ou outro qualquer, tome a decisão de desistir de uma prova nos Jogos Olímpicos tem de sentir verdadeiramente que não tem outra opção. Alguém duvida disto? Acho incrível que algumas pessoas venham para aí comentar que ela desistiu porque é fraquinha ou que foi tudo uma estratégia para chamar a atenção ou que ela estava era com medo de falhar. A sério. Fico passada com a falta de noção.


SIMONE-BILES-APTOPIX-Rio-Olympics-_Cast-5.jpg.jpg


É tão surpreendente que, chegados aqui, ainda haja tanta gente que desvalorize a saúde mental e que ache sempre que as pessoas estão a exagerar ou são fracas por assumirem que têm problemas. Está na hora de mudar isto. Talvez o facto de Simone (tal como Naomi Osaka há uns tempos) se ter sentido à vontade para desistir seja um sinal de que as coisas já estão a mudar. Talvez.


Tenho falado um pouco sobre saúde mental por aqui


E sobre os Jogos Olímpicos havia tanto a dizer. Estes jogos do Japão estão cheios de histórias e pessoas incríveis. Mas, de todos, este é o meu momento preferido: quando o italiano Gianmarco Tamberi e o atleta do Qatar Mutaz Barshim decidem partilhar a medalha de ouro do salto em altura.


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Simone

Tenho passado os dias entre o trabalho e os Jogos Olímpicos de que, como vocês devem saber, sou grande fã. Sou aquela maluquinha que, mesmo já sabendo os resultados, põe a box para trás para ver o que perdeu durante a madrugada. Gosto particularmente do atletismo e da ginástica. Desde sempre. E foi por isso com grande pena que vi a Simone Biles desistir de quase todas as suas provas. Nem consigo imaginar o que ela deve estar a sentir. Primeiro, não consigo imaginar o que é ter 19 anos e estar a competir nos Jogos Olímpicos e ganhar tantas medalhas, como aconteceu com ela no Rio de Janeiro. A mim, que se me acelera o coração se tiver que falar em público, que ainda hoje me tremem as pernas se sentir que estou a ser avaliada em qualquer situação, acho que nunca seria capaz de competir em coisa nenhuma. Não consigo imaginar como será ser a melhor do mundo e sentir toda a pressão que ela sentiu para repetir os feitos, como aconteceu antes destes jogos. E, finalmente, não consigo imaginar como será treinar durante tanto tempo - praticamente uma vida inteira - e com tanto empenho para, depois, chegar ali, ao momento mais importante, e desistir. Mas uma coisa eu consigo imaginar: o sofrimento enorme que esta decisão lhe deve ter causado. Não é uma decisão que se tome de ânimo leve. Para que um atleta, seja a Simone ou outro qualquer, tome a decisão de desistir de uma prova nos Jogos Olímpicos tem de sentir verdadeiramente que não tem outra opção. Alguém duvida disto? Acho incrível que algumas pessoas venham para aí comentar que ela desistiu porque é fraquinha ou que foi tudo uma estratégia para chamar a atenção ou que ela estava era com medo de falhar. A sério. Fico passada com a falta de noção.


SIMONE-BILES-APTOPIX-Rio-Olympics-_Cast-5.jpg.jpg


É tão surpreendente que, chegados aqui, ainda haja tanta gente que desvalorize a saúde mental e que ache sempre que as pessoas estão a exagerar ou são fracas por assumirem que têm problemas. Está na hora de mudar isto. Talvez o facto de Simone (tal como Naomi Osaka há uns tempos) se ter sentido à vontade para desistir seja um sinal de que as coisas já estão a mudar. Talvez.


Tenho falado um pouco sobre saúde mental por aqui


E sobre os Jogos Olímpicos havia tanto a dizer. Estes jogos do Japão estão cheios de histórias e pessoas incríveis. Mas, de todos, este é o meu momento preferido: quando o italiano Gianmarco Tamberi e o atleta do Qatar Mutaz Barshim decidem partilhar a medalha de ouro do salto em altura.


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