Sunday, March 01, 2015

De cor

"Quando em meu mudo e doce pensamento


chamo à lembrança as coisas que passaram


choro o que em vão busquei e me sustento


gastando o tempo em penas que ficaram.


E afogo os olhos (pouco afins ao pranto)


por amigos que a morte em treva esconde


e choro a dor de amar cerrada há tanto


e a visão que se foi e não responde.


E então me enlutam lutos já passados,


me falam desventura e desventura,


lamentos tristemente lamentados.


Pago o que já paguei e com usura.


Mas basta em ti pensar, amigo, e assim


têm cura as perdas e as tristezas fim."


 


William Shakespeare, tradução de Vasco Graça Moura. 


"Assim que dez pessoas sabem um poema de cor, não há nada que a CIA ou o KGB ou a Gestapo possam fazer. Esse poema vai sobreviver", terá dito George Steiner. Este é o soneto "30", citado por Boris Pasternak, decorado pela avó Cândida, aprendido ontem à noite por dez pessoas em By Heart, de Tiago Rodrigues, no Teatro Maria Matos. Trouxe o poema na cabeça e num papelinho cor-de-rosa metido na mala. O espetáculo é uma pequena maravilha. by heart.jpg

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