Friday, December 19, 2008

Que esforço?

Na enfermaria onde estive após ter tido o meu segundo conheci uma mulher que chorava todas as noites. Ouviamo-la a fungar por trás da cortina. Diz que teve um parto horrível. Que foram muitas horas de sofrimento e que de repente estava tudo à volta dela a carregar-lhe na barriga e um médico com fórceps e a criança que não saía, uma aflição. No final ficou toda rasgada e dorida que mal se mexia e o bebé tinha ficado nos cuidados intensivos até ver se a demora e as amolgadelas na cabeça não lhe iriam deixar sequelas. Acabou de ter o filho e nem lhe podia pegar. Estava ali deitada e de três em três horas lá se arrastava até à outra ponta do hospital para ir amamentar o seu bebé e dar-lhe um bocadinho de colo até que as enfermeiras a expulsavam e lá vinha ela de olhos vermelhos morrer de inveja a olhar para mim e para as outras com os nossos rebentos.

Tenho uma amiga que passou horas, muitas horas, em trabalho de parto, completamente sozinha no corredor de uma maternidade. Não podia ter o seu companheiro com ela porque não tinha quarto. Não tinha quarto porque estava tudo cheio. E ali ficou a contorcer-se com dores, a vomitar para o chão, a gritar sem amparo, a senhora da limpeza a passar a esfregona por debaixo das suas pernas. De vez em quando, quando mudava o turno, alguém parecia interessar-se. Enfiavam uns dedos e iam-se embora. Horas nisto. Nenhuma explicação. Ninguém a quem recorrer. Agarrada à barriga. A doer.

Eu ouço isto e nem me posso queixar. Mas a verdade é que eu fui, voluntariamente, mais uma cliente desta fábrica nacional de parir bebés que são as maternidades públicas. Como tantas outras. Entramos ali e dão-nos logo um clíster e uma rapadela, sem pedir licença nem dar explicações, que ali nós somos utentes e baixamos a bola porque os doutores é que sabem e podem vir cá ver quantos dedos cabem as vezes que lhes apetece. Bata verde, catéter no braço, e agora ficas aí queitinha e deitadinha com o ctg a apertar-te a barriga. Se precisar de alguma coisa toque a campanhia que há de aparecer a auxiliar com cara de frete a perguntar o que é. Se quiser fazer xi-xi dão-lhe uma arrastadeira (porquê? as grávidas não se podem mexer e ir à casa-de-banho?). E ainda não chegámos à parte do parto propriamente dito. Onde os cortes são feitos por princípio, antes mesmo de se perceber se vai ser necessário. E só pode haver um acompanhante - e, portanto, se a mulher tem uma doula tem de prescindir do companheiro. E mesmo os pais não podem ficar depois do parto porque temos que ir umas horas para o recobro - podem ser duas horas ou seis horas, depende das vagas na enfermaria, e ali fica a mãe sozinha outra vez, agarrada ao seu recém-nascido, com as emoções aos pulos e ninguém para partilhar. (só eu mesmo que sou ideologicamente estúpida para me deixar levar duas vezes pela conversa de que os hospitais públicos é que são bons)

Li hoje no jornal Público que Portugal é o segundo país da Europa com mais cesarianas e que os hospitais deviam todos, mas sobretudo os particulares, fazer um esforço para diminuir o número de intervenções. Que esforço? Claro que aos senhores que mandam (e que são quase sempre senhores, o que pode ser parte da explicação mas não é a única) não ocorre que grande parte do problema se resolveria se as maternidades funcionassem como deve ser. Se não tratassem as mulheres como se fossem gado. Se tivessem o cuidado de preparar efectivamente as suas grávidas para o parto (e já agora uma preparaçãozita ao pessoal que lá trabalha também não seria má ideia). Porque enquanto houver histórias destas para contar é claro que haverá cada vez mais mulheres que, sempre que possível, vão recorrer aos hospitais particulares e chegar lá com a certeza absoluta que querem fazer uma cesariana porque não querem passar pelo que a amiga passou. E alguém as pode censurar?

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32 Comments:

Blogger 3Picuinhas said...

Cara Gata,
Pois tem toda a razão. Eu sou mãe "tardia" de duas filhas. Por causa de todas as histórias que conheci, e porque o meu obstetra não exercia no público, optei por partos na Cruz Vermelha. Foram partos caros mas inesquecíveis. No primeiro, parto vaginal com epidural, contei com o apoio do companheiro, duas parteiras solidárias e um médico fantástico que termina o seu trabalho com um beijo na testa da parturiente e um "parabéns, mãe". No segundo, cesariana por opção (cesariana seguida de laqueação de trompas-- isto de ser mãe aos 38 já não é a mesma coisa...), tive direito a uma abraço da parteira enquanto a anestesista tratava da epidural e à presença do companheiro. E não é assim tão difícil, não é preciso um hotel de 5***. O que é preciso é humanizar os serviços. Humanizar. Bastava isso, porque não há nada que ajude mais a suportar as dores que ter gente que se importa à nossa volta.

4:56 PM  
Blogger dora said...

Eu ouvi histórias dessas, mas estava confiante no meu hospital público - já lá tinha feito uma raspagem e fiquei comovida com a forma como me trataram. Leio isto e sinto que sou uma privilegiada - tive um parto prematuro que podia ter corrido mal e acabou tudo bem, com toda a gente a amparar-me. Uma parteira prática e terna, um anestesista que me explicou tudo, uma cesariana de urgência e uma enfermeira à espera que eu abrisse os olhos no recobro para me dizer que a minha pequenina estava muito bem, que era forte. O meu marido sempre comigo, o nosso cartãozinho amarelo de pais de criança internada a dar-nos gestos de simpatia desde a porta de entrada até à porta de saída. Uma equipa incrível na neonatologia - humana, sensível, com todo a paciência do mundo para nos explicar o que se ia passando, para nos ajudar no primeiro banho, para nos dar conselhos. O meu próximo filho também vai nascer no Hospital de Santo António do Porto.
A minha história é boa, também há histórias boas nos hospitais públicos.

5:39 PM  
Anonymous Carlos Duarte said...

Cara Maria João,

Quando se fala da qualidade do parto no público vs o privado, geralmente a parte do comforto / assistência fica um bocado esquecida, é verdade. Aliás, como acontece com a cirurgia.

O "problema" é quando existem complicações. Aí, acredite - ressalvo que não sou omnisciente e podem existir excepções - que quer estar num público. Se tiver sorte, têm um ambulância e enviam-na para o público mais perto. Se tiver azar...

Só mais uma nota / curiosidade: os obstetras, por norma, não gostam de doulas que apelidam - na maioria das vezes à boca pequena - de charlatãs.

5:58 PM  
Blogger -pirata-vermelho- said...

Obrigado por ter contado o que sabe.
Agradeço e estou de acordo com algumas conclusões que tira mas penso que os hospitais públicos devem ser procurados e o seu serviço reconhecido.
É bom lembrar que, pago e bem pago, há de 'tudo isso' nos privados onde o custo elevado se destinaria a evitar o inadmissível.

7:07 PM  
Blogger Ana Rute Cavaco said...

é. infelizmente.

de que nos adianta que hajam lá médicos muito bons se as condições e meios são o que se vê?

os meus 3 e mais que vierem foram no particular, graças a Deus.

8:10 PM  
Blogger Ana C. said...

Conselho para a posteridade: Seguro de saúde. É vital para quem está a pensar engravidar. E vital para uma mulher que vai "parir" é fazê-lo no particular. É triste, mas é a realidade do nosso país, onde ainda reina muito a ideia de que a mulher deve sofrer para dar à luz.

10:14 PM  
Blogger Loira said...

Eu tive o meu filho num público e tenho a certeza que fui bem tratada unica e exclusivamente porque a minha médica (particular) estava presente. Percebi perfeitamente o tom da enfª chefe de serviço. Várias vezes, a sr.ª ia para dizer asneira e depois voltava atrás. Ou foi isso ou o facto de trabalharmos em comunicação social, não sei. Claro que tb apanhei uma ou duas enfermeiras óptimas, mas a outra poderia ter estragado tudo.
Não gostei da experiência, mesmo tendo corrido relativamente bem. Senti-me invadida, desprotegida, inferiorizada, num dia que era suposto ser o mais feliz da minha vida. No internamento, custou-me a falta de privacidade.
Se tiver outro, será provavelmente no privado.

10:59 PM  
Blogger Sophis said...

Eu tenho duas experiências tão separadas pelo tempo (9 anos) como por tudo o resto. Ambas no público, mas tão diferentes. A primeira culminou com uma cesariana, com ora um ora outro médico a medir os dedos. A médica a quem paguei consultas ao longo de 41 semanas foi de férias e aí passei a ser mais uma entre muitas, num hospital que era novo, com televisão no quarto, onde havia apenas uma equipa de anestesisas e...era uma questão de sorte haver epidural. Eu não tive. Era Agosto, ainda por cima. Por ironia do destino, o que desta vez me fez mudar para Coimbra foi a al da epidural. Porque durante meses, depois de ter o meu filho, chorava sempre que me lembrava das dores. Escolhi desta vez para as consultas uma clínica cujos quatro médicos trabalham também na maternidade pública, havendo a garantia de que um deles está sempre de serviço por lá. É a "máfia" da saúde versão portugal. E assim foi. Fui parar a uma maternidade a cair de velha, mas com um rol de enfermeiras que perceberam o quano e tão mais preciso um sorriso ou um mimo nas horas que se seguem ao parto do toda a técnica do mundo. Ah...partidinha do tal destino: não foi a cesariana que iria marcar às 38, mas um parto natural às 36...sem epidural (não houve tempo), mas com termogel aquecido nas cosas para minimizar as dores. E muito mimo.

12:46 AM  
Blogger Mamã said...

This comment has been removed by the author.

12:47 AM  
Blogger Mamã said...

oncordo com o que foi dito aqui: querem ter filhos façam um seguro de saúde.

Tive 2 filhas no Hospital da Cruz Vermelha, porque sempre me aterrorizou o parto.

Ir para um privado não é como ir para um Hotel como muitos apregoam, é um sítio onde estamos, como todas as mulheres deviam estar, calmamente, e bem acompanhados a ter um filho.

Quando vêm com a história do "se alguma coisa correr mal", gosto de relembrar que se temos um obstetra um anestesista e uma ou duas enfermeiras só para nós, e se fizémos todas as ecografias e CTG's que haviam para fazer, as hipóteses de "alguma coisa correr mal" são muito menores.

Sempre me chocaram as histórias (verdadeiras) do:

"não levei epidural porque era hora da mudança de turno do anestesista"

"ah, ela não dilatou durante 24 horas e depois o bebé ficou em perigo e tiveram de fazer cesariana"

"Ah levou epidural? Então agora aguente-se que há outras que não levaram e que precisam do médico"

É por estas e por outras que as coisas correm mal.

Como diz uma amiga minha: o parto natural, de natural não tem nada. E hoje em dia não se justifica o sofrimento da mãe e por vezes dos bebés.

Fiz no privado, fiz cesariana (que por ter tido tanto acompanhamento não teve pós-parto doloroso) sem stresses, tudo muito calmo e bonito.E, apesar de nos ter saído do pêlo (mesmo com seguro) foi o dinheiro mais bem gasto da minha vida.

12:50 AM  
Anonymous Anonymous said...

Sabem que as taxas de cesariana em hospitais privados são cerca de 85-90 %? não é por serem hospitais privados que são melhores.
a todos os que se queixam do pessoal, deviam ver muitas vezes o outro lado, os bastidores. acreditem que não é fácil para quem estaá a trabalhar de seguida há 24h, com muitas delas passadas a ver doentes que não têm indicação nenhuma para estar ali, e muitas vezes mal educados, é também humano. em todos os aspectos.

3:43 PM  
Blogger Loira said...

Anónimo: terá investigado também o número de bebés que nascem com sequelas ou mortos por não se fazer uma cesariana? E as taxas de mortalidade antes de se praticarem cesarianas?
Conta, peso e medida...
Tive um parto normal e, curiosamente, na altura, queria um parto normal. Levei epidural já com 6 dedos de dilatação por não haver anestesista disponível. Com dilatação tão avançada, só me deram a epidural porque a minha médica mandou.
Não me choca haver quem prefira ter um filho de cesariana. E também não me choca que um médico opte por cesariana por achar que a mãe não tem estrutura suficiente para um parto normal ou simplesmente porque ter pânico de parir. Choca-me, sim, ter uma amiga que esteve mais de 30 horas em trabalho de parto, sendo que se sabia perfeitamente bem que precisaria sempre de forceps já que o bebé pesava mais de 4 quilos e a mãe nunca conseguiria fazê-lo vir ao mundo sem ajuda. Choca-me conhecer casos de morte fetal por não se ter avançado para uma cesariana a tempo. Choca-me que nesses mesmos casos a mãe seja obrigada pelo hospital a fazer um parto normal. Chocam-me os inúmeros casos de crianças com sequelas cerebrais pela insistência no parto normal...
Conta, peso, medida e, sobretudo, bom senso... não é pedir muito.

4:01 PM  
Anonymous Ana said...

Boa Tarde,
infelizmente não concordo nada consigo, se quer ir de férias escolha um bom Hotel, se quer jantar fora escolha um bom restaurante, se tem automóvel avariado escolha uma boa oficina, se necessita de cuidados médicos escolha um Hospital público. Têm defeitos? Imensos... Mas na Saúde nunca confiemos numa instituição de saúde cujo objectivo é dar lucro... Os euros têm de vir de algum lado e, a poupar é que está o ganho!!... Haverá excepções mas não as conheço... Mas pela minha profissão e qualidade de vida: Viva a Privada!!

7:16 PM  
Blogger Pimpinelas said...

Boa noite,
Confesso que sempre me fez um pouco de impressão a forma como se apontam todos os defeitos e mais algum aos hospitais públicos e todas as virtudes e mais alguma aos hospitais privados. É conversa que não me convence: certamente que os hospitais públicos necessitam de ser muito melhorados, mas concerteza que também em muitos hospitais privados se prestam maus cuidados médicos.

A respeito do parto posso dar o meu exemplo: tive o meu filho na Estefânia, em Lisboa, e não posso dizer senão bem de todos os profissionais que contactei. Fui bem tratada, a comida não era má, roupa lavada todos os dias e sempre que fosse necessário, tratamento humano, enfermeiras por tudo quanto era sítio e sempre à minha volta, duas médicas, duas enfermeiras e uma pediatra no quarto onde tive o bebé. Quarto esse limpo, acolhedor e onde estive sempre com o meu marido (salvo quando o bebé teve de ser extraído com ventosa). Já agora, a médica que acompanhou a minha gravidez não me fez o parto, pelo que nem tive tratamento preferencial. Devo também dizer que dois dias depois de ter vindo para casa me telefonaram a perguntar não só como estava o bebé, mas também (coisa que acho que às vezes é esquecido), como eu estava, e ainda estive à conversa com a Senhora Enfermeira uma boa meia hora a falar de uma série de coisas.

Ah, e tenho seguro de saúde, mas escolhi ter o bebé no público, que será onde também irei ter o meu segundo daqui por uns anos :)

A respeito da cesariana, parece-me que ela deve ser feita sempre que se justificar medicamente, o que vale tanto para os hospitais públicos como para os privados.

11:17 PM  
Anonymous Anonymous said...

Tenho uma prima que nasceu na Inglaterra e teve o seu primeiro filho lá. O relato que ela me fez do parto deixou-me completamente impressionada com o tratamento que dão às grávidas. Um dos factos é que a mulher tem a opção de poder escolher a posição que pretende ter o seu bebé, sobretudo a posição que lhe parece mais confortável. Aqui temos de estar de "perna aberta", numa posição que não deve ser nada cómoda e que não deve ajudar em nada a descida do bebé. Outro dos factos é que puderam estar com ela, quando do nascimento do bebé, a mãe, o pai e o marido. Três pessoas. Aqui, isso é impensável. Porquê, pergunto eu? E mais, ela também me disse que "a rapadela" não lhe foi feita, o que em Portugal parece ser obrigatório e que, segundo sei de vários relatos, é feito de forma quase brutal, muitas vezes com utensílios já pouco cortantes (lol).
O segundo filho já nasceu em Portugal ficando ela chocada com o tratamento que lhe foi dado, ainda para mais tendo em conta que ela na altura não falava bem português e a relação entre profissionais e ela ficou marcada por alguns desentedimentos.
Acredito que médicos e enfermeiras estejam muitas vezes com trabalho até à ponta dos cabelos, mas é importante que perceberem que se trata-se de um momento em que a mãe se deve sentir (sobretudo se for o primeiro filho! sozinha, insegura e fragilizada muitas vezes e que precisa, nesse momento, de acompanhamento, apoio.
Ainda não sou mãe e sinto-me completamente assustada com os relatos que vou lendo, aqui e ali...

11:42 PM  
Blogger Rita said...

Anónima das 11:42, obrigada pelo relato do parto da sua prima. O grande problema de toda esta discussão é que no nosso belo país as grávidas escolhem uma de duas: ou um parto num hospital público que de natural só tem o sítio por onde o bebé sai, ou uma cesariana programada ou então um parto provocado normalmente seguido de uma cesariana paga a peso de ouro num hospital privado.

Acho que em muitos casos a cesariana deve realizar-se tendo em atenção factores de trauma de partos anteriores - acho que conheço o caso descrito no post e nesse caso claro que se justifica. Agora a ideia de que a cesariana é mais segura do que um parto normal é totalmente falsa: o risco de morte materna aumenta 7 vezes(sabiam que a cesariana é a primeira causa de morte materna em Espanha?); o risco de morte fetal numa segunda gravidez é muito maior, aumenta os problemas respiratórios aos bebés, enfim... É incrível que uma mulher saudável queira ser operada - e uma cesariana é uma cirurgia major - com pânico do parto.

As coisas estão a mudar, felizmente, e hão-de mudar ainda mais. Pode ser que muito em breve nos consciencializemos de que uma gravidez sem risco não precisa de obstetras para nada e muito menos de clisteres, raspadelas, soros e gente a comandar um processo que o nosso corpo sabe bem fazer sozinho. É preciso é que o deixem. Quando alguma coisa corre mal, aí entrem então os médicos e as cesarianas e tudo o que é preciso e ainda bem que existe para salvar as vidas que disto precisam.

12:15 AM  
Blogger princesa das estrelas said...

Eu tive o meu filho num hospital privado. A minha médica, que também trabalha na MAC, acabou por me fazer uma cesariana porque estava com a tensão bastante alta e proteína na urina. Confesso que, na altura, desatei a chorar. Sentia-me incapaz de ter um filho por mim. Não escolhi fazer uma cesariana, sei os riscos que dela podem advir para a mãe e para a criança, mas também sei que deve haver poucas coisas piores que uma mãe traumatizada com um parto. E ouve-se e vê-se cada coisas nos hospitais públicos deste país...
Os cuidados médicos até podem ser os suficientes e os profissionais muito competentes, mas na maioria dos nossos hospitais publicos falta humanização dos cuidados, no mínimo.
Tenho amigas que estiveram mais de 20 horas em trabalho de parto porque se deixa sempre até à última para fazer uma cesariana (é muito caro e implica a presença de um anestesita), tenho amigas que não tiveram direito a epidural porque só havia um anestesista de serviço que estava em outra box, sei de amigas que não tiveram epidural porque o parto foi durante um fim-de-semana grande e o único anestesista estava de férias... já para não falar do resto. Os hospitais públicos têm má fama e têm de aprender a contrariá-la. De que me importa um bom médico se depois sou tratada como uma vaca que está ali para parir sem mugir? E essa velha questão de que no público é que é porque no privado os profissionais são piores é uma treta: os médicos que trabalham no privado são, em grande parte, os que trabalham no público. Só que num têm menos partos de uma vez, têm pessoal auxiliar melhor treinado, e têm mães que se sentem no direito de reclamar, se for preciso, porque estão a pagar para estar ali.
Eu recorro muitas vezes a hospitais públicos mas confesso que quando se trata de maternidades... a coisa é diferente. Coloca-se mulheres que acabaram de perder bebés ao lado de mães com os seus bebés nos braços; colocam-se mulheres que, por motivos médicos, têm de fazer um aborto, na mesma sala de grávidas a fazer ctg, olha-se de lado uma mulher que vá à consulta para interromper a sua gravidez quando ela o que precisa é de um pouco de conforto e uma voz amiga e não falsos moralismos.
Os exemplos são tantos... é evidente que as coisas tabém correm mal nos hospitais privados. Não sou ingénua a esse ponto. Só que, como a Rita muito bem disse no seu comentário, quando vamos ter um filho não estamos doentes. Salvo algumas excepções, vamos fazer algo para o qual o nosso corpo já está preparado. Precisamos de uma pequena ajuda e de um ambiente propício, calmo, tranquilizador, para que tudo corra da melhor forma. E as nossas maternidades públicas não estão preparadas para isso. Nem quem lá trabalha.

12:22 PM  
Blogger mamie2 said...

Concordo com tudo o que disseste. Há demasiadas histórias de terror nos serviços públicos. - o esforço tem de começar lá dentro.

Eu tive os meus dois de cesariana. Talvez do primeiro houvesse outra opção, mas fiz indução e resultou em cesariana. Da segunda não havia outra solução.

Não me arrependo. Correu muito bem. Iria até onde fosse preciso com a minha obstetra, mas serviços públicos: não obrigada! (só quando não tiver outra solução!)

Bjocas

3:23 PM  
Blogger Cristina said...

Concordo inteiramente contigo!

Cristina

3:58 PM  
Anonymous Filipa said...

Público ou privado, a questão é muito mais profunda. Tem a ver com a forma como se encara o nascimento em Portugal: como se fosse uma doença. E não é.

12:57 PM  
Anonymous Anonymous said...

"É incrível que uma mulher saudável queira ser operada - e uma cesariana é uma cirurgia major - com pânico do parto", diz uma Rita lá em cima. Enfim, até entre as mulheres, opera a sensibilidade de talho vigente na MAC.

1:21 PM  
Anonymous Diana said...

Tive as duas experiências. E posso dizer que apesar de ter sido muito bem tratada no público, os seguintes preferi ir para um particular. Pelas melhores condições (ter o marido ao lado ajuda muito não me venham cá com histórias) e também pelo apoio dado à mãe. Foi muito bom poder descansar do parto sossegadinha sabendo que os meus filhos estavam bem entregues!

3:24 PM  
Blogger Rita said...

Eu sou a Rita lá de cima. Ó senhor (a) anónimo cá de baixo: por favor, aprenda a ler, pesquise na net, faça alguma coisa antes de fazer figuras ridículas novamente. Percebo de facto porque não assina o seu nome.

4:20 PM  
Blogger Sónia said...

Apesar do Seguro de Saúde que tenho optei pela MAC para ter a minha filha!

Fui muito bem tratada! É certo que a minha médica estava na MAC, mas não foi ela que assistiu ao parto! Mas sim 2 "parteiras" fantásticas! Uma tipo general que se revelou uma querida e muito competente! Tive epidural, não sem antes levar da anestesista "um sermão" que vinha ter comigo se na hora H, eu não desse tudo por tudo para a minha filha nascer! Tive sempre atenções de quem passava por mim! Até conversei com enfermeiras de serviço durante o trabalho de parto que durou umas belas horas! Estava sozinha, é certo, mas assim que foi possível o meu marido veio para ao pé de mim!
Gostei! Fui bem tratada! Correu tudo bem! Mesmo na 1ª noite em que a bebé chorava baba e ranho estive acompanhada! Ajudaram a minha filha a mamar!
Só posso dizer bem!

5:01 PM  
Anonymous Anonymous said...

Disse e repito, alegada Rita: afirmar ser " incrível que uma mulher saudável queira ser operada - e uma cesariana é uma cirurgia major - com pânico do parto", mostra sensibilidade de bota cardada, independentemente das buscas que se façam na net. O anonimato é absolutamente irrelevante para o que se discute. Já não o são a sua falta de sensibilidade, compaixão e respeito pela diferença. Assina, O anónimo cá de baixo.

6:34 PM  
Anonymous nya said...

So tenho isto a dizer:

'tem dores? ai doi? pois mais havia de lhe doer.. veja la se lhe doeu pra o fazer? pois nao nao doeu..agora aguente-se'

By: enfermeira do Amadora-Sintra à minha tia no primeiro filho.. Espero que isto tape os comentarios pró-hospitais publicos, porque se nao tapar é porque tem muito ainda que ver na vida e encarar a realidade

12:21 AM  
Anonymous Coelha said...

Olha eu não sou mãe ainda mas com o aproximar dos 30 começo a pensar nisso, e claro tb porque sou casada e o meu marido quer muito ser pai. Morro de medo do parto e acho que esse medo me vai levar a protelar a decisão de ter um filho ad eternum... depois do que aqui li, e que acredito que seja a mais pura verdade, ainda com mais medo fiquei. Começo já a juntar guita para ir para a CUF descobertas. tenho ouvido maravilhas. E venha a cesariana!

7:59 PM  
Blogger Rita said...

Anónimo: bota cardada? Continuo a não perceber a sua argumentação. Quando eu digo que é triste que o pânico do parto - e este pânico de que falo é uma ideia de parto enraizada desde o tempo em que se escreveu o maravilhoso «parirás com dor» - leve as mulheres a escolherem fazer cesarianas desnecessárias faço-o com conhecimento de causa. Coisa que você ou não tem ou não mostra ter.
A cesariana é muitas vezes pedida pelas mulheres por causa do corte vaginal - que é desnecessário na esmagadora maioria dos casos (para ter uma ideia, em Portugal 90% das mulheres são cortadas, na Suécia esta taxa é de 8% (porque o corte só tem indicação médica quando é necessário acelerar o parto) - porque são maltratadas nos hospitais, que as vêem como doentinhas que elas não são, porque o parto tornou-se um acto médico e não um acto da natureza, fisiológico, que é o que ele é. Se você acha que é ser carniceiro preferir que os partos sejam normais quando tal é possível, tente assistir a uma cesariana. Mas veja do princípio ao fim, está bem?

5:35 PM  
Anonymous paula said...

Não podia concordar mais.
E o que me irritam essas noticias com as estatisticas e o apelo ao parto "normal", precisamente por as razões que aqui tão bem apresenta.Mas nunca, nunca, li esta opinião em jornal/revista de papel. Mas porquê? Que raio de campanha é esta?

Fico contente por alguêm finalmente ter escrito aquilo que para mim é tão óbvio. Só quem não passou por experiências semelhantes, sejam nossas ou de quem está ao nosso lado pode falar tão "levianamente" contra cesarianas ou hospitais privados para ter o parto.
Obrigada por fazer passar esta opinião.

1:55 PM  
Anonymous runescape money said...

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11:47 AM  
Blogger Jo said...

Anónimo "cá de baixo": se a Natureza fosse tão má como a descreve (ter um parto normal para si é sinónimo de horror e sofrimento), a Humanidade não tinha chegado até ao século XXI, não acha? Se chegou e não se extinguiu é poque parir um ser humano não é assim tão impossível.

Vá ver as estatísticas dos outros países e veja as diferenças: os nórdicos e os alemães - esses povos muito atrasados - têm taxas de cesarianas muito mais baixas do que as nossas. Já nós, podemos comparar-nos orgulhosamente com os países da America Latina. Nada contra os latino-americanos, mas é suposto que Portugal tenha melhores estatísticas. Foi para isso que entrámos na CEE.

2:18 PM  
Anonymous intelligence said...

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