Friday, January 25, 2013

Estas não incomodavam ninguém na esplanada (I)

(...) A Parada, um clube privado (...). O meu pai fez-nos sócios e os meus irmãos e eu andávamos para ali nem sei bem a fazer o quê, com as criadas vigiando-nos a fazer renda ou a ler fotonovelas (...) Só agora, cinquenta anos depois, arrisco: era um clube indolente, onde as mães bebiam Canada Dry a cartear enquanto os maridos jogavam ténis, e as mademoiselles de Bristol, Paris ou Trás-os-Montes passeavam os filhos na espécie de bosque que rodeava o clube (...)
Voltando à Parada: grande parte das crianças veio a drogar-se depois ou a traficar ou a assaltar casas de amigos ou a despenhar-se nos carros dos pais ou, ainda, a roubar lojas para comprar droga, tudo fruto daquela educação impaciente confiada a pessoal primário, industriado para se abster de considerações e só incomodar os progenitores em casos muito graves, como partir um braço ou morrer afogado nas ondas que não existiam na Praia da Conceição. Resultado: quando voltaram a ser incomodados, anos mais tarde, foi pela judiciária.
(...) Era muito pequena, pelo que a verdade é que não tenho grandes recordações da Parada, a não ser a ideia cada vez mais precisa de que os adultos não nos ligavam bóia (...)
Foi por essa altura que o meu pai, alheado mas lúcido, resolveu que aquilo não era meio para os filhos crescerem e nos arrastou nas férias para a Praia das Maçãs. (...) Os cafés eram pindéricos, a praia desabrigada, a água  ártica e as ondas todos os anos levavam umas tantas crianças anónimas, já que os banheiros vigiavam com outra aplicação os filhos-família:
- Ó Fortunato, tenha paciência, veja-me aí a Madalenazinha, que é muito afoita no mar. Posso ficar descansada? (...)

in 'A menina é filha de quem?', de Rita Ferro (Dom Quixote, 2011)

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