Wednesday, April 23, 2008

Dás-me um autógrafo?

“O tempo passa, os cabelo embranquecem mas as verdadeiras amigas jamais se esquecem.” Esta era talvez a frase mais popular nos livros de autógrafos. Todas tínhamos um. Livrinhos pequenos, comprados para o efeito, com folhas brancas e grossas, enfeitados com bonequices, o meu é mais bonito que o teu. Sempre que alguém se cruzava na nossa vida pedíamos-lhe um autógrafo. Uma frase, um desenho, um conselho. Coisas de meninas, obviamente. Meninas que na escola primária escreviam com letra bonitinha, cheia de rebicoques, e que depois passaram a escrever com letra redonda, simplificada, quase ilegível, grandes bolas em cima dos is, letra de gente grande, imaginávamos. Pedíamos autógrafos aos amigos, aos professores mais especiais (houve alguns, é verdade), aos escritores que nos visitavam na escola (a Matilde Rosa Araújo, a Alice Vieira), à família. “A vida é uma estrada, com buracos às vezes, é preciso guiar bem para não cair neles”, escreveu o meu pai. A minha tia desenhou uma escada: “Esta é a escada da vida, sobe-a e vencerás”. Cito de cor. Não sei onde foi parar o meu livrinho de capa azul, cuidadosamente protegido por um plástico, para durar da escola primária até à C+S, e cheio de quadras foleiras que exaltavam a amizade “para sempre”, prometíamos umas às outras. Não sou de guardar muitas recordações. Tirando as fotografias, organizadas em álbuns, desde que tive a minha primeira máquina lá pelo sétimo ano (na verdade, herdei a máquina da minha mãe, uma daquelas que tiravam fotografias quadradas mas que, apesar de antiquada, fazia um sucesso, eu era a única que podia fotografar as nossas palhaçadas no recreio), mas, dizia eu, tirando as fotografias que ainda hoje gosto de rever, não guardei mais nada, nem cartas, nem diários, nem mesmo o livro de autógrafos. Foi tudo parar ao lixo numa das últimas arrumações e o que sobrou está agora a ter o mesmo destino – sempre que falo com a minha mãe, ainda atarefada a esvaziar a nossa casa de sempre, ela confronta-me com mais uma tralha de infância: e os livros dos cinco? E a tua flauta? E a colecção de selos? E eu não tenho resposta, mas que raio, não tenho espaço para arrumar tanto passado nas minhas pequenas assoalhadas de Benfica. As coisas que verdadeiramente importam ficam guardadas nas nossa memória, tento convencer-me. Não preciso da papelada para me lembrar das pessoas de quem gostei. E de certa forma isso é verdade. O livro de autógrafos já deve ter ido para reciclar e aqui estou eu a pensar nelas, na Cristina, na Filipa, na Tânia, na Dina, na Andreia, na Luísa, na Xana, na Patrícia. Que baboseira adolescente terei eu escrito nos livrinhos delas?

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2 Comments:

Blogger Carlos Barbosa de Oliveira said...

Desculpe que a contrarie, mas penso que nunca escrevemos baboseiras nos livros dos( as) nossos(as) amigos(as).
O que acontece é que quando nos tornamos adultos, perdemos a capacidade de ser sinceros e passamos a ver a vida com outros olhos. Tenho a certeza que muitos jovens continuam a escrever baboseiras para os amigos. Pura e simplesmente, porque olham para vida com outros olhos. Eu gostava de ainda ver a vida com o olhar de um adolescente, mas infelizmente, não posso voltar atrás, porque fui atingido pela cegueira dos adultos.

3:22 PM  
Blogger Alecrim said...

"Lindo botão de rosa
cor de rosa por abrir.
Se já agora és formosa,
que fará ao florir?!"
- dum livro de autógrafos, claro.

12:44 AM  

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