Seis anos
Não chorei. Desliguei o telefone e não chorei. Passei a noite em claro. Não dormi um minuto que fosse e, depois, às sete da manhã fui tomar banho e acordar os miúdos e levá-los à escola como se não se passasse nada. O pai ficou a trabalhar, disse-lhes, ou outra coisa do género, e eles acharam normal porque já era normal o pai não estar. Lembro-me que caía uma chuvinha parva e eu andei muito a pé. E depois de ter a certeza que as coisas eram como eram e de perceber como as coisas seriam daí para a frente, só depois disso, fui para casa e chorei. O telefone entupido de chamadas perdidas e mensagens de amigos a falarem-me do Bernardo Sassetti. Também eles choravam. Há pessoas que morrem mas que na verdade continuam vivas em nós. E também há pessoas que continuam vivas mas que na verdade morrem para nós. Limpei os olhos e fui buscar os miúdos à escola. Estava estranhamente tranquila naquele momento, enquanto caminhávamos pela estrada de benfica e falávamos da escola, da festa do amigo do Pedro no dia seguinte e das coisas do costume.
Como nos espectáculos, a vida tem sempre de continuar.
E continuou.
Somos capazes de até ter dado umas gargalhadas.

6 Comments:
Beijinho :)
a vida continua, claro. e neste caso, seguramente, melhor. porque mais vale só do que mal acompanhada.
muitos, muitos parabéns por essa caminhada solitária, de certeza que se está a sair muitíssimo bem! (apesar de agora poder n parecer)
Cristina Silva
apaguei sem querer o seu comentário, lamento imenso.
aqui vai um beijinho para a troca
mjoao
E o que não nos mata... torna-nos mais fortes!
Continuo a gostar muito de ler este cantinho.
Beijinho
Outra MJoão
O importante era receber o meu beijo.
Obrigada.
Um texto inspirador!
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